Eu não sei o que ha de sublime, e mavioso nas lagrimas d'uma mulher. Como se Deus lhe désse a humildade por instrumento de triumpho, eu senti-me enfraquecer, ao mesmo tempo que recobrava toda a minha coragem, pedindo-a á saudade de Helena, como se pede uma alegria ás recordações do passado, que se nos foi com todas ellas.

Eu creio já ter dito a v. exc.ª que D. Rosa é uma linda mulher. Quando a retratei, havia alli n'aquella physionomia um colorido de felicidade, um sangue agitado que lhe vinha em estos ardentes do coração, uma viveza robusta, que denunciava um feliz descuido de pezares.

Hontem não era assim. Rosa estava livida. Orlavam-lhe os olhos umas manchas azuladas, que marcavam talvez a passagem de muitas lagrimas escondidas, em longas noites de desesperação. Posto que vaidoso, eu não me felicitei, minha cara amiga, por ter sido a causa d'esses padecimentos. Se é por mim que elles existem, não se me dá da gloria inutil que elles possam dar-me. Não tenho nenhuma: não me prestam de balsamo para o coração; não me aquecem esta cabeça de gêlo; não me deixam roubar ao passado um instante para com elle idear futuros de impossivel felicidade.

Poderei amar esta mulher repetindo as minhas visitas? Não. A aproximação é o divorcio das grandes paixões, que a distancia esposára. Aos pés do homem cahe partido o prisma, quando o hálito da mulher é tão de perto que lhe empana as côres.

E eu, de mais a mais, não desejei aproximar-me, quando a vi de longe. Não senti este toque inesperado, esta surpreza electrica, uma só vez recebida na existencia de cada homem.

Poderá o tempo fazer o que não fez um instante?

Não.

Dizem que existe um amor lentamente creado pelo habito, emanação da amizade contrahida pela semelhança de vontades, resultado d'uma demorada elaboração de dous espiritos que se consagram no mutuo sacrificio de propensões e desejos. Não sei o que seja isto. A razão rejeita essas candidas theorias.

Eu só creio no amor não esperado, não grangeado por sacrificios, não calculado de dia para dia.

Se me dizem que essas paixões improvisadas n'um olhar, e n'um sorriso, e n'um córar, são instantaneas, e ephemeras como o féto arrancado ao embrião, com violencia, antes de tempo, eu direi que sim... que morrem essas paixões na vida, porque ha a pedra do tumulo que desce quando Deus a manda, mas ha a eterna saudade que nem a Providencia póde desvanecel-a no coração, que se envolve n'um pedaço da mortalha, roubada a outro coração, que o deixou viuvo de todas as esperanças, e gélido para todos os confortos.