—Quer com isso dizer que não a sacrifique á murmuração dos visinhos?
—Escuso lembrar á sua honra esse dever. O senhor deve ser o primeiro a lembrar-se da susceptibilidade em que estou na presença d'um mundo que não distingue as mais honestas das mais torpes intenções...
—Está raciocinando com admiravel prudencia, senhora D. Rosa!... Quer em summa dizer que não devo vir a sua casa...
—Não digo tanto; mas devo pedir-lhe que seja menos frequente nas suas visitas...
Comprehendi-a...
E ergui-me d'um impeto para retirar-me. Parece que o coração se me tinha despegado no peito. Ouvi um zunido estranho, que me fazia latejar a cabeça em dolorosas pontadas. Era tudo escuro diante de meus olhos, e não havia em mim sensação que me não fizesse recear uma demencia.
Sahi, e, só muitos passos longe d'aquella casa fatal, me lembrou a retirada boçal que fizera. Como foi possivel que eu não respondesse áquella mulher?! Que indignação, ou que nobreza d'alma foi a minha, que me não inspirou uma palavra que a fizesse córar?! Será isto uma devassidão moral, que supporta impassivel todas as offensas? A longa desgraça petrificou-me? Um amor, todo sancto, todo saudade, o amor de Helena, dous annos puro no sacrario do meu coração, fez-me cynico?
Tenho-me hoje feito estas perguntas. É um tormento não poder responder. Não posso. Não sei o que sou, nem o que é aquella mulher!
Seria uma desgraça, um cancro incuravel na minha alma a certeza de que ella é tão infame como se me ostenta!
Vejamos se posso absolvel-a... Oh! eu queria absolvel-a, sem deshonra para mim, nem para ella!... De que modo?...