Minha prezada amiga
Eu tinha esperanças na minha convalescença moral. O coração, aturdido por padecimentos tumultuosos, cansado e endurecido por cicatrizes de golpes sobre golpes, adormecera extenuado... Eu principiava agora uma nova estação na minha vida. A insensibilidade promettia-me uma tranquilla vegetação. Adormeceria sem lagrimas; acordaria sem sobresaltos; veria tudo descórado em redor de mim; abriria para tudo, que me cerca, estes olhos de estatua, sem culto para o bello, nem asco para o repugnante.
Este ultimo baluarte sinto-o esboroar-se debaixo dos pés. Á convalescença da alma segue-se a desorganisação da materia.
Estou doente d'uma enfermidade que eu sentia, ha annos, fermentar-se-me no coração. Muitas vezes sentia umas palpitações extraordinarias, e depois dores agudissimas, um suor copioso, um mal-estar physico e moral, um mixto de aborrecimento e desesperação, que eu attribuia sempre á inconsolavel viuvez da minha alma.
Este padecimento, nos primeiros mezes da minha viagem, diminuiu até se extinguir. N'outro tempo, não se me dava sentir aggravar-se o mal; mas, agora, queria vêr-me livre, queria viver muito n'este marasmo de todos os sentidos.
Não o quiz a Providencia. Ha quinze dias que soffro muito. Dizem-me que tenho uma aneurisma. Não sei o que é... É a morte, que me fugiu quando eu a chamava, e me chama quando eu lhe fujo. Não posso dizer-lhe que bem vinda seja!
Mandam-me a ares patrios... Eu não sahirei, já agora, d'aqui... Este conselho da medicina é um futil subterfugio.
A minha doença estudo-a nos livros onde aprendem a cural-a os medicos. É inevitavel a morte... Póde-se assim viver longos annos; mas eu, assim, não desejo viver...
É lamuria de mais por uma cousa tão transitoria como a vida!... Eu devo ser superior a esta pouca materia que se dissolve no dia seguinte áquelle em que o espírito planisa mil prosperidades. Não me deve ser penoso morrer, porque eu não tinha previsto felicidade nenhuma. O meu futuro seria uma atonia glacial, uma sensibilidade de morte no coração, e vida na apparencia... Viver assim, entre os homens, ou entre cadaveres, que importa?... Morrerei resignado.
Agora posso fallar-lhe de tudo, porque tudo me é indifferente. Levanto, hoje, a suspensão que impuz á sua bondade, minha amiga. Póde fallar-me de Rosa. Que é feito d'essa mulher?