Tenho dinheiro, que me é inutil aqui. Preciso desperdiçal-o... Quero tocar a extrema da miseria, para que a necessidade me faça artista, e o trabalho me salve d'estes ocios despedaçadores. Não sei onde irei... nem mesmo quero sabel-o... De qualquer parte, minha querida amiga, virá uma minha carta pedir-lhe uma lagrima. Quando a não receber... quando o silencio lhe afigurar que a sua amizade fez um ingrato, poderá v. exc.ª dizer: «Aquelle desgraçado, de quem fui tão amiga, e que tanto deveu ás minhas consolações, morreu!»
E v. exc.ª poderá então louvar a Deus, que encravou a roda do meu infortunio. Poderá agradecer-lhe, como unica pessoa que deixarei no mundo com o meu nome no coração, a graça da morte concedida ao talvez primeiro homem, que não teve cinco minutos de felicidade na demorada existencia de vinte e seis annos.
N'este momento ha em mim alguma cousa sobrenatural. Não amo Rosa Guilhermina; mas tambem a não detesto! O que eu muito queria era o segredo d'aquella indole, porque eu não seria acreditado se contasse a transição do amor ao desprêso, a infame mentira que me arrancou aos braços d'um cadaver para me lançar nos da desesperação.
Deixal-a! Quero até pedir a Deus... a Deus! a desgraça, que é a mãe da piedade! Sinto-me religioso, porque, acima d'estas torpezas, ha de necessariamente existir um Creador, que deixou aqui a dilacerarem-se o mal e o bem. Este Creador deve ser juiz, e eu começo a temêl-o desde este momento... Quero, pois, pedir a Deus que proteja o futuro de Rosa Guilhermina. Os anjos vão com ella. Esta expressão do povo é a mais expansiva e tocante que a minha alma pode dar-lhe. A derradeira consolação do infeliz é perdoar. Eu perdôo... Offereço o meu coração para todos os punhaes; curvo a minha cabeça a todas as desgraças; dobro o meu joelho a todas as violencias, e prometto de nunca mais chamar infames os instrumentos, que obedecem á vontade superior do grande motor da vida, e da morte, da honra, e da deshonra.
Não tenho coragem de abraçal-a, minha cara irmã. Adeus.
De v. exc.ª
Amigo de toda a vida,
Paulo.
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Roma, 4 d'abril de 1825