Rosa Guilhermina vai sahir do Porto. D. Anna do Carmo faz parar, ha quatro dias, a carruagem á porta de sua filha. Alvaro de Sousa reconciliou-as. Leia v. exc.ª essa carta, que recebo n'este momento:

«Confidente de minha amiga Rosa Guilhermina, devo dizer a v... que as suas visitas a esta casa, emquanto ella fôr minha hospeda, são bastante prejudiciaes á futura felicidade d'esta senhora. Sua mãe, informada das relações que o chamam a minha casa, obriga Rosa a sahir do Porto. Suspeito que a sua direcção não pare aqui em Portugal.

«Da parte de v..., tanto eu como ella esperamos a cavalheira prudencia, que o seu bom caracter nos afiança. Se a ama, como devo acreditar das cartas que lhe escreve, desvele-se em não prejudical-a. Até aqui a sua união com a filha sem mãe, seria possivel. Hoje que D. Anna do Carmo reconhece sua filha para eleval-a até onde o dinheiro a collocou, declaro-lhe, com pesar meu, que serão, além de inuteis, nocivos todos os seus esforços.

«Com sincera estima

«De V...

«Veneradora affectuosa,

«Maria Elisa

Ora aqui tem, minha boa amiga, o artista em lucta com a sociedade. Ella ahi vem pôr-me um pé, segunda vez, no pescoço! Cá sinto já a dôr vilipendiosa, e nem sequer sei já sorrir-me, quando a soberba me estende na face uma bofetada! É preciso ser homem, antes de tudo. Quero tirar nobreza da minha vilania! Esta dôr moral é mais forte que a outra. Sinto desvanecer-se o amor, e só tenho alma para compulsar as agonias d'uma paixão incomparavelmente maior. Cerra-se uma ferida; mas creio que me abriram outra incuravel, rasgando-me a antiga cicatriz.

Hoje preciso da vida, porque é impossivel que eu não tenha a minha hora de vingança...

Vou sahir de Portugal... não porque me reconheça tão pusillanime que receie aqui uma consumpção moral... Não é isto... é que debaixo d'este céo não ha para mim um anjo bom que me auxilie n'esta peleja desigual com o meu inseparavel demonio.