Rosa, coitadinha, perguntava á sua consciencia se o amor era aquillo que José Bento lhe dissera. Parecida com a mãe, segundo o pae dizia, o instincto segredava-lhe cousas novas, que o visinho não sabia decifrar-lhe. A seu pesar, porém, a pequena chorava com saudades do rapaz.

Felizmente adormeceu, pedindo a Sancta Barbara, sua advogada, que a livrasse do velho, assim como, pela sua muita virtude, se podéra livrar do impio Diocleciano (reminiscencias do ultimo sermão, que prégara fr. Miguel dos Antoninhos, na Misericordia, dias antes).

Em virtude do que, dormiu pacificamente, viu em sonhos o José Bento, queixando-se da barriga, e acordou de madrugada, quando a magra mão de Angelica a chamava para o oratorio, em que se rezava tudo que havia escripto sobre a materia.

Ao almoço, o senhor Antonio José da Silva aproveitava a edição de cara que não pôde dar á luz na ceia, por falta de concorrencia da parte interessada no espectaculo hediondo. Estava, portanto, mais feio que nunca o senhor Antonio. Durante o almoço de café com leite, e biscoutos de Avintes, nem uma palavra trovejou das belfas tumidas o desditoso amante. Rosa comia sem vontade, e Angelica sopeteava deliciosamente as suas sôpas, aboboradas em leite quente, porque os seus quatro dentes não eram para graças.

Findo o almoço, appareceu o arcediago Leonardo Taveira, que comeu tres biscoutos, indispensavel lastro para um copo de vinho, e pequena refeição para quem vinha de rezar quatro psalmos, em lingua barbara, no côro da Sé.

Reanimado de eloquencia propria do pae e do levita, o arcediago chamou sua filha á parte, e recapitulou, á ultima hora, as admoestações do dia anterior. Recalcitrou a desobediente rapariga. Fumegaram as pandas ventas do sacerdote. Volitaram-lhe das ditas caroços de rapé, como as frechas dos thracios contra Jupiter, e sacudiu da profana lingua um feixe de raios de maldição: Vibrata jaculatur fulmine lingua, como depois dizia o guardião dos gracianos, fr. Antonio do Menino Deus, a quem elle contava o accesso.

O seu discurso, que não vale a pena de especial menção, terminou por intimar a Rosa a immediata sahida d'aquella casa. Entretanto, o padre Leonardo foi buscar a ordem de entrada no recolhimento. Quando veio, Angelica pendurou-se-lhe ao pescoço, em risco de lhe enterrar o fio cortante da barba no queixo d'elle. Supplicava-lhe a piedosa mulher que lhe deixasse a filha mais nove dias, e, ao cabo d'elles, promettia dar-lh'a alliviada.

—Alliviada!—exclamou o pae, arfando as azas do nariz—minha filha alliviada!...

—Pois então...? quer que lhe diga uma cousa ao ouvido?... venha cá...

O padre media Rosa da cabeça aos pés, mas o ponto fixo d'esse olhar não era de certo nos pés nem na cabeça... Angelica acenava-lhe, e elle não podia attendel-a, porque parece que a cara da filha denunciava um crime inaudito... Era precisa coragem. O arcediago deu o ouvido direito á velha: