O cabello negro, em ondas, cerceado pelas pequeninas orelhas, era d'um effeito satanico. Olhos rasgados, e negros, como as espessas pestanas; trigueira; com todo aquelle fogo vertiginoso das mulheres trigueiras; labios sedentos de beijos, sorrindo para o amor e para a zombaria com o mesmo sorriso; e, mais que tudo isto, um buço, tão igual, tão caprichosamente graduado até aos cantos dos labios, em que o maldito seductor parecia colher um beijo para atormentar os Tantalos d'esta iguaria...

Creio que não fazem ideia nenhuma da pequena pelo retrato que lhes dei. Eu tambem não. Quando me pintaram a physionomia d'ella, não fiz ideia nenhuma, e prometti desde logo communical-a ao publico tão fielmente como eu a concebera.

Se tendes senso-commum, basta dizer-vos que Maria Elisa era trigueira para m'a receberdes como linda, porque as não ha lindas se não são amoldadas por aquella outra trigueirinha que o sancto rei de Jerusalem celebrisou nos seus cantares. Olhai lá se elle, entre mil queridas que lhe rodeavam a existencia de portas a dentro, cantou alguma outra! Pela trigueira, mas formosa, nigra sum sed formosa, o sabio elanguescia d'amor, amore langueo. Em nenhuma outra viu olhos de pomba, oculi tui columbarum; só a ella concedeu nos seios mais limpidez que no vinho, pulchriora sunt ubera tua vino, e o pat-chouli da trigueirinha era superior a todos os aromas, et odor unguentorum tuorum super omnia aromata.

E como creio que nenhum de nós tenha a ridicula vaidade de ser mais sabio que Salomão, concordemos em que o typo, que mereceu a especial sympathia do sabio por excellencia, deve ser o eterno typo do bello.

Toda esta erudição vem confirmar que Maria Elisa era bella, porque era trigueira. A julgal-as exteriormente, as duas meninas deviam ser dois temperamentos oppostos. Rosa denunciava uma d'estas mulheres eternamente cansadas, apparentemente somnambulas, arfando a cada palavra de tres syllabas que dizem, olhando para si com ar de piedade e para os outros com aborrecimento, rindo-se com a bôca toda, e mastigando pausadamente uma resposta dependente d'um sim ou não. Elisa colleava-se, requebrava-se, desconjunctava-se, trepava ás arvores, fazia discursos sobre a inconveniencia das mulheres velhas, sobre o despotismo da regente, tudo em linguagem muito caracteristica, e acabava por entristecer-se, dizendo que se sua mãe soubesse o que ella penava, partiria a pedra do tumulo para galardoar a regente e a sub-regente cada uma com dois sopapos.

Parece impossivel que estas duas organisações sympathisassem! Pois eram amicissimas, viviam juntas de dia, illudiam as vigilancias dos guardas para pernoitarem juntas, e chegaram, por estranho milagre de infusão, a neutralisarem os temperamentos de modo que se pareciam muito uma com a outra.

Elisa arrancára á sua amiga a revelação do motivo por que a encarceravam. Ouviu-lhe, com seriedade comica, a odienta impertinencia do senhor Antonio José da Silva, monstruoso amante, e n'essa noite improvisou, no seu quarto, com o travesseiro e chapéo e jaqueta do hortelão um Antonio José da Silva, e convidou Rosa para assistir a um castigo exemplar. O castigo era uma carga de vassoura no mono, até se despegar a aba esquerda do chapéo do hortelão: tudo isto com estridolas gargalhadas de ambas, que pozeram em alarma o dormitorio.

A respeito do senhor José Bento, cuja derradeira entrevista, Rosa fielmente contára, não nutria Elisa sentimentos mais sérios. Achava-o tôlo, estupido, achavascado, e promettia pôr-lhe um rabo de papel, se algum dia tivesse a fortuna de encontral-o.

E a filha do arcediago achava que a sua amiga tinha razão, porque as historias de amores, que ella lhe contava, eram cousa mais sublime, mais deslumbrantes, que os seus miseraveis dialogos com o filho do retrozeiro, a quem Elisa denominava patego, parrano, gebo, e outras amabilidades, como lapardão.

—Olha, Rosa, não contes a ninguem que foste namorada d'esse pazbobis—dizia Elisa, passeando na cêrca com o braço botado por sobre o hombro da sua amiga.—Eu tenho ouvido contar muita historia ás raparigas que vem obrigadas para aqui. Umas são fidalgas que quizeram casar com homens ordinarios, e outras são raparigas como eu com quem os fidalgos não querem casar. Todas ellas contam á gente as conversas que tinham com os namoros, e dizem cousas muito bonitas, que fazem chorar, como as novellas da Maria Peixoto, que eu li.