—Quem é a Maria Peixoto?
—Era uma rapariga que já sahiu. Queres saber o que ella fez? Eu te digo. Um tio metteu-a cá, porque ella queria casar-se com um plebeu, sendo fidalga dos quatro costados, como diz a regente, que tem mais dois costados que as outras. A Maria Peixoto quando entrou, faz agora um anno chorou muito, e esteve á morte. Quando se levantou da doença, estava alegre, e diziam as velhas que fôra milagre de Nossa Senhora do Rosario. Eu estava admirada de a vêr tão contente, quando me ella disse que queria fugir do recolhimento, e precisava fingir-se para a não vigiarem. Um dia entrou um carro de lenha por aquella porta, e ella andava por aqui disfarçada, e quando pilhou a porta aberta, ó pernas, p'ra que vos quero!... A tôla, se havia de procurar o namoro, foi metter-se em casa d'uma tia, que era tão boa como o tio, e n'esse mesmo dia trouxeram-na cá outra vez.
—Coitadinha!... e depois? trataram-na muito mal?
—Isso sim!... Se a visses, fugias-lhe! Parecia o demonio! Com a faca da cosinha na mão, correu atraz da regente, que se alapou no quarto, e gritou por soccorro. Procurou todas as velhas, deu um pontapé na sacristã, atirou de cangalhas a Lima velha, foi á porteira, e disse que lhe cravava a faca no peito se ella lhe não abrisse a porta. A porteira gritava como uma perúa, emquanto a Maria Peixoto lhe tirava a chave, e abria a porta. Não te digo nada, Rosinha! Nunca mais lhe pozeram ôlho... Da segunda vez foi mais fina. Casou-se com o tal rapaz, e mandou cá buscar os bahus, e muitas recommendações á regente, que ainda se benze quando se falla em Maria Peixoto... Aquillo era levadinha! E esperta? Traduzia novellas francezas ás raparigas, e leu-me uma que fazia doer a barriga com riso... era o Cavalheiro de Faublás, já lêste?
—Eu não tenho lido nada... Em casa do tal amigo de meu pae não havia livro nenhum. O que me lá deram foram as Horas Mariannas e a Alma Convertida.
—Olha que brutos!... Deixa estar que te hei de contar a historia do Cavalheiro Faublás, que é de morrer a gente com riso. A senhora regente pôz-se um dia á escuta, quando a Maria Peixoto lia uma passagem, e disse uma rapariga que ella estava a rir-se; mas, depois, entrou com as cangalhas espetadas no grande nariz, perguntando que livro era aquelle. A Peixoto disse-lhe que era a vida da Gloriosa Sancta Maria Magdalena Virgem, e a regente disse que Sancta Maria Magdalena não era virgem. «Então é martyr»—teimou a Peixoto—«nem martyr, nem confessora» replicou a regente, e levou-nos o livro, que, pelos modos, lhe traduz hoje o padre capellão, valha a verdade.
—Recolham-se, meninas, que é noite—resmungou fanhosa a regente de uma janella.
As meninas subiram, praguejando a superiora, especialmente Maria Elisa que recitou uma ladainha de titulos em que os menos insolentes eram camafeu, trôxa de ovos e santopêa.
Quando passavam no dormitorio, espreitaram pela fechadura de uma porta, e fungaram com riso.
—Deixa-me vêr a mim—disse Elisa.