Pobre Aonio, pobre Aonio,
Que demonio te tentou!?
Antes dentes ter, Antonio,
Que não ter, e ser Cupido!

Dom Cupido desdentado,
Quer o fado que eu te diga,
Que não pódes ter barriga
Mais mal feita para Rosa!

Come bem, morre a comer,
Que, a meu vêr, é grande asneira
Ter inveja do João Pereira,
Teu visinho, ao tal chinó!

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Et cetera.

O chinó de João Pereira fôra sempre o pensamento negro da victima do poeta! Este sarcasmo ferira atrozmente o infeliz! A reacção devia ser dolorosa, mas, passada a crise, o senhor Antonio sentia-se bom, porque ao pino do meio-dia, horas de jantar, a sua paixão dominante era o melhor dos appetites. Não tinha havido poesia, que tão util fosse ao genero humano, até então, porque só depois vieram as poesias hygienicas, ás quaes a humanidade está muito agradecida, principalmente a humanidade atacada de vigilias. Afóra estas, foi aquella a poesia que melhor fructo colheu. O senhor Antonio, desde esse dia, comeu como sempre, e dormiu como nunca. Ao mesmo tempo que era açoutado em effigie no quarto de Maria Elisa, o razoavel negociante apertava os vinculos, meio lassos, que o prendiam á Thereza, com barraca de fructa na Ribeira, e entendia de si para si que a mulher que lhe convinha era aquella.

E, tão de maus humores o encontrava o arcediago, que nem ousava fallar-lhe em Rosa, nem, o que mais era, o convidou para o vinho verde de Campanhã nos domingos de tarde.

Data d'ahi, portanto, a tolerancia do padre com os divertimentos da filha. Visitava-a com melhores maneiras. Festejava Maria Elisa, que lhe chamava padrinho, presenteava-a com vestidos similhantes aos de sua filha, e redobrava de contentamento, sabendo que o filho do retrozeiro era uma cousa sem importancia no voluvel coração da pequena.

Tudo corria maravilhosamente para todos, quando Rosa Guilhermina, dia de entrudo, atirava cantaros de agua, e recebia-os agradavelmente pela cabeça. O resultado, porém, foi uma constipação despresada, uma tosse continuada, febre, e, na primavera seguinte, foi julgada no principio d'uma phtysica.

O arcediago resolveu levar sua filha a ares para uma sua quinta de Ramalde, e alcançou licença a Maria Elisa para acompanhar a sua amiga. Sahiram, e desde esse dia, a regente, a sacristã, e todas as velhas, especialmente as Limas, agradeciam, todas as manhãs, á Providencia o favor de lhes afastar de casa similhante flagello.