O senhor Antonio soffreu, pela primeira vez, uma decepção nas suas crenças senis. O pugilato com a senhora Anna Canastreira chamou-o á razão, e, se não é profanar a ideia, diremos que a poesia matrimonial do senhor Antonio fôra dilacerada pelas unhas felinas da visinha.
O pobre homem tinha vergonha do successo. Na rua das Flores não se fallava em outra cousa. O seu visinho João Pereira, o do chinó, ria-se á sucapa com o visinho da loja immediata, emquanto sua mulher contava á visinha, com grande hilaridade, os famosos murros, que o ciumoso Antonio jogára com a mãe de José, por causa da Rosa. O que ella não dizia, por não escandalisar, e todos o sabiam, era que um seu amante fôra a forçada testemunha do apaixonado dialogo, que os leitores, sem serem os amantes da mulher do senhor João Pereira (se é que alguns o não foram), tambem ouviram.
O rico negociante tinha inimigos, émulos de negocio, os peiores de todos, que espreitavam o primeiro ensejo de o apoquentarem. Não podia ser melhor o motivo. Algum mais odiento levou a sua vingança ao extremo de fazer quadras ao desventurado negociante. Algumas d'essas quadras, em verdade chistosas, chegaram á minha mão. Se não fosse o medo de aggravar a indigestão de versos em que imagino encruado o estomago do publico, podéra dar-lhe quatrocentos e tantos versos consagrados ao senhor Antonio José da Silva, debaixo do titulo: CUPIDO DESDENTADO. Sem embargo, porém, da christã generosidade que tenho com o leitor, não o poupo ao flagello de lêr um fragmento d'esse poema, que devia ser a causa principal do abandono a que o infeliz heroe votou a filha do arcediago.
O dito poema é de author incognito, e o fragmento não vol-o dou como primor de arte; é crivel, porem, que o author tivesse filhos, e os filhos do author, apurados em raça, serão talvez os genios que hoje prendem a nossa admiração, e engrandecem as letras patrias.
Elle ahi vai:
Dom Cupido desdentado,
Despresado em seus desvelos,
Jurou, sobre os seus chinelos,
Guerra eterna ao seu rival!
Fumegando pelas ventas
As tormentas do ciume,
Todo elle é fogo, é lume,
No solar do Retrozeiro.
Dom Cupido desdentado,
Desarmado, vai sem frecha
Quer abrir, a murro, a brecha
Do rival no coração.
Torce os olhos, solta um urro,
Préga um murro na maçã
Da fanhosa castellã,
Que se atira a elle á unha.
Dom Cupido desdentado,
Não vingado, cahe de chofre,
E tal pêso a velha soffre,
Que estourou! ó vista horrivel!