O arcediago, supposto não vivesse com ellas, almoçava, e jantava com sua filha, ceava com uma senhora viuva que lhe administrava a casa; e, depois de ceia...
Depois de ceia, ha muita cousa a dizer a este respeito.
É sabido que Rosa Guilhermina era filha de uma tal Anna do Carmo, velha predilecção do padre Leonardo, e por elle dotada para o honesto fim de casar-se com um tal francez, com loja de livros na rua das Flores.
O padre não andou com toda a generosidade n'este negocio. Dado o dinheiro, se quizesse ser honrado, devia renunciar inteiramente, a beneficio do livreiro, a mulher de que se descartára. Magôa-nos, porém, ter de annunciar que o arcediago era um agiota no seu genero, e pensamos que a senhora Anna do Carmo não era mau genero para agiotagem.
A verdade é que o pae de Rosa continuava a visitar de dia o estabelecimento do livreiro, comprava algum livro que ajuntava, na estante, aos seus virgens irmãos, e predispunha favoravelmente com as visitas diurnas a confiança do marido, que tinha lido Molière, e não queria incorrer no defeito do Cocu imaginaire, que o leitor póde lêr, se a consciencia o não incommóda.
A honesta esposa repellia as seducções do padre, esquivando-se a encontros em que o usurario amante parecia convidal-a a pagar-lhe um juro avaro do capital recebido. Dissertava-lhe amplamente sobre a verdadeira virtude, pintava-lhe a ingratidão o mais feio dos crimes, dissuadia-a de temores piegas que não tinham nada com a verdadeira religião, e queria convencel-a de peneira nos olhos a respeito do matrimonio e de muitas outras cousas.
O francez não sabia que fôra elle o amante de sua mulher.
Movido pelo interesse que as frequentes visitas do amador dos bons livros lhe dava,—e, de mais a mais, convencido da honestidade de sua mulher, se o padre, feio e velho, tentasse seduzil-a,—o senhor Hemerin Pierrote (Deus lhe falle n'alma) acolheu agradavelmente o seu bom amigo, e honrou-se muito, não só das suas visitas, mas do interesse que o generoso padre tomava em ser o padrinho do primeiro filho de tão feliz matrimonio.
Madama Anna Pierrote recebia com repugnancia as pontuaes visitas do arcediago, e esta repugnancia, que seu marido lhe censurava como inconveniente aos interesses de ambos, era uma nova razão para que o espirito do francez estivesse tranquillo, e as suas portas sempre francas para o generoso compadre.
Este parentesco fôra contrahido muito contra vontade da senhora Anna. Seu marido, porém que recebera de antemão o enxoval do recem-nascido, perguntou cheio de cólera a sua mulher, se queria algum garçon de bone mine (rapaz esbelto) para compadre. Accrescentou que, se ella fosse fina, devia ameigar constantemente o arcediago, que era rico, e poderia fazer o afilhado seu herdeiro. Resumiu, emfim, o seu discurso, declarando, pelo sacre nom de Dieu, que o arcediago de Barroso seria seu compadre, e mandaria n'aquella casa como na sua.