A senhora Anna, coma boa esposa, resignou-se; padre Leonardo, como bom compadre, vinha duas vezes ao dia fazer caretas e botar a lingua de fóra, com o pequeno nos braços; e o risonho marido, como habil e francezissimo logrador, deixava o padre em cima ensinando a creança a dizer papá, e vinha para a loja fazer negocio e trautear a Marseillese.

A creancinha, habituada com o arcediago, apenas o via, estrebuxava no collo da mãe, batendo as palmas, e articulando—papá, papá. O livreiro ria-se muito contente da esperteza do pequeno, e ensinava-o a dizer padrinho; e a creança, que não sabia ainda ajuntar tres syllabas, teimava em dizer papá.

Mr. Hemerin estava contentissimo do filho, e da mulher tambem, porque a repugnancia em receber o arcediago desapparecera desde certo tempo, e sua mulher, emfim, sabia viver perfeitamente com o compadre, e já se lhe não dava de jogar com elle a bisca de nove, e o trinta-e-um.

Correram dois annos n'esta perfeita harmonia. Os visinhos riam-se do francez, mas a razão do riso devia ser elle o ultimo que a soubesse.

Eram notorios, na rua das Flores, os precedentes de Anna do Carmo; os maledicentes sabiam que ella fôra amante do arcediago; o livreiro visinho contava aos seus freguezes a immoralidade do jacobino (que vendia melhores obras, e sortira a sua loja de tudo que se procurava) e lamentava a queda da religião, se o senhor bispo não pozesse côbro áquelle grande escandalo.

O demonio da intriga viera perturbar a felicidade domestica d'aquella familia.

O pequeno Leonardo, já de dous annos, continuava a chamar papá ao padre, com grande aprazimento do pae matrimonial. A senhora Anna mostrava a seu marido as prendas que o compadre lhe dava. O marido mostrava a sua mulher o córte de velludo vermelho que o compadre lhe déra. Tudo isto ia le mieux qui se peut, como dizia o jubiloso livreiro, quando, abrindo de manhã a porta, encontrou uma carta em que um seu amigo intimo, como todos os amigos das cartas anonymas, lhe dizia o que se passava em sua casa, as antigas relações de sua mulher com o padre, e o descredito geral em que a sua honra andava nas praças publicas. Como seu amigo intimo, e zeloso do seu bom nome, aconselhava o generoso espião que pozesse o padre fóra de casa, e que mettesse a mulher no Ferro, para assim dar uma plena satisfação ao publico escandalisado.

O discreto marido leu a carta, e vendeu com a maior presença de espirito um Flos-Sanctorum a um padre da aldeia, que se apeára d'uma égoa, no momento em que a porta se abrira.

—Estas obras de sanctidade—disse o padre—creio eu que se vendem pouco... A religião está por terra... Já lá vai o tempo em que os frades escreviam obras de substancia... Os de hoje criam muito cachaço, e os seculares são uns libertinos, que o mais que fazem é apanhar as prebendas, os canonicatos, e os beneficios para viverem á regalada. O exemplo devemol-o dar nós, como diz o apostolo: Ante eas vadit, et oves eum secuntur... Já lá vai esse tempo. Os bons padres, e que sabem do seu officio, vivem obscuros na aldeia, e ninguem os chama para as dignidades da igreja; os que arruinam com a sua má vida e mau exemplo o edificio da religião, a casa de Deus, ædes Domini, esses são chamados a lamber as chagas do corpo putrido da humanidade; canes veniebant, et lingebant ulcera, como diz S. Lucas no capitulo XVI.

—Então o senhor padre veio requerer algum beneficio, que lhe não deram?