—Dizem-me que sim, até o homem é estrangeiro, por signal, e tem não sei que officio. Se vmc.e quizer, eu volto cá qualquer dia, e posso saber-lhe tudo isso a preceito.

—Muito obrigado... eu não tenho interesse n'isso...

—Pois é como é. A religião está entregue a estes ministros. O arcediago de Barroso tem muito dinheiro em casa d'um negociante da rua das Flores, mas esse dinheiro é o preço por que elle comprou o inferno... ganhou-o nas symonias... Lá está em cima quem o ha de julgar... E, com isto, adeusinho até outra vez. Fique na graça de Maria Sanctissima, e passe por cá muito bem até outra occasião, se Deus nos dér vida. Adeusinho, sem mais.

O padre abria o alforge para metter o Flos-Sanctorum, quando o arcediago lhe dava uma palmada no hombro.

—Tu por aqui, padre João Pires?

—É verdade... Então que é feito, Leonardo?

—Vamos vivendo... Já te não vejo ha muito!...

—Não ha dinheiro para vir á cidade... Os padres de requiem não comem do cabido... Lá nas aldeias o mais que se pilha é a missinha de tostão, que não dá para hostias. Isto cá é outra cousa. Os padres do Porto são cardeaes, menos na sabedoria, que no mais tem tudo...

—Não é tanto assim, padre João... Deus sabe como cada qual se arranja. Então vieste comprar o teu livrinho?

—É verdade; comprei o Flos-Sanctorum, e sabe Deus o que me tem custado a arranjar os tres mil e duzentos.