—Se queres mais algum, e não tens dinheiro, eu fico por ti, e tu pagarás depois ao senhor Hemerin, que me faz o favor de ser meu amigo.
O arcediago piscou o ôlho para o livreiro, que estava encostado ao mostrador, e o livreiro, sorriu-se d'um modo que era novo para o arcediago.
—Nada, muito obrigado—disse o padre João Pires—eu não gosto de fazer dividas, porque não tenho esperanças de ser conego para pagal-as depois... Com que sim, meu caro Leonardo... Os bons tempos que nós passamos no seminario... lembras-te?
—Se lembro!...
—Eras um bom tratante!... fugias de noite, e vinhas de madrugada pedir-me que te ensinasse o Larraga... Boas as fizeste!... Que é feito d'aquella rapariga do vendeiro de Campanhã que tu tiraste de casa?
—Não fallemos n'isso... Como tu te lembras d'essas rapaziadas... Esse tempo passou...
—Pois era uma rapariga perfeita!
—E aquell'outra das Fontainhas, que tinha um pae levadinho da breca, que te fez fugir em camisa para o seminario?
—Cala-te lá com essas cousas, João!... Isso foram bambochatas de estudante...
—Está feito, está feito... Tu tens pago um bom tributo á mocidade... Já tu eras padre ha muitos annos, e ainda fazias das tuas de estudante...