Convencido do inesperado quão feliz resultado da extravagante scena, veio á rua das Flores, e encontrou Anna do Carmo, ao mostrador, espantada de que seu marido sahisse sem dar parte, nem chamal-a a ella para a loja.

Isto fez impressão no arcediago, que teve a prudencia de calar á mãe dos seus filhos o desgraçado encontro com o amaldiçoado padre de Ponte-Ferreira.

Todavia, a sahida rapida do francez alguma cousa queria dizer. O atilado arcediago reflectiu no que poderia resultar d'alli; lembrou-se, um momento, que a sua organisação physica poderia soffrer algum abalo menos agradavel, e, finalmente, appellando para o futuro com a intrepidez de philosopho, esperou as consequencias.

Acabava o velho amigo de padre João Pires de fazer os seus juizos, quando o livreiro entrou com a mesma affabilidade, com o inalteravel sorriso d'um esposo feliz.

—Sahiste sem dizer nada?!—disse a senhora Anna.

—Foi-me necessario sahir com tal precipitação, que nem me lembrou chamar-te.

—Pois que foi, Hemerin?

—Que havia de ser? Um engano... Vieram-me aqui dizer que o regedor das justiças me queria mandar prender, porque eu vendia clandestinamente na minha loja livros protestantes, e folhetos escriptos contra a religião. Corri immediatamente a casa do regedor, e tive a fortuna de encontrar, quando lá cheguei, o desmentido da calumnia que forjaram contra mim os meus inimigos.

—Inda bem!...—disse a mulher.

—E se não acontecesse assim—accrescentou o arcediago com o contentamento da boa fé—eu ainda tenho amigos para desmanchar as traições dos seus inimigos.