—Muito obrigado, senhor compadre. Tudo está arranjado, d'esta vez. Se elles continuarem, v. s.ª será o nosso protector, como tem sido sempre.

O arcediago almoçou com elles, e não podia deixar de felicitar-se por ter casado a mãe de Rosa com tão boa pessoa, alma tão singela, e genio tão estimavel a todos os respeitos. Fez muitas festas á creancinha, que dava biscoutos ao livreiro para que os désse ao papá, o que o livreiro, com paternal meiguice, cumpria, rindo-se muito da galanteria do pequeno.

Correu o dia regularmente. O arcediago despediu-se á meia noite, promettendo na noite seguinte pagar quatro partidas de bisca, que perdera jogando com a senhora Anna, emquanto seu marido sahira a encommendar de Paris a nova edição de Bossuet e Bourdaloue.

Na madrugada do seguinte dia, Hemerin levantou-se mais cedo que o costume, e disse a sua mulher que lhe désse a chave da commoda em que estava a sua roupa branca.

Anna quiz erguer-se para dar uma camisa a seu marido, e elle mandou-a ficar. A mulher instou, e o francez intimou-a imperiosamente que não sahisse.

Momentos depois, a mãe de Rosa sentiu fechar-se por fóra a porta da rua! Ergueu-se, foi á commoda, e achou-a vasia da roupa de seu marido. Desceu á loja, tudo estava fechado. Tornou ao seu quarto e viu um bilhete sobre o lavatorio, com estas poucas palavras: «És uma boa mulher, mas não me serves. Eu não sou mau homem, mas não te sirvo. Sejamos francos, e bons amigos. Tu ficas, e eu vou. Regala-te com o padre, e faz-lhe visitas minhas. Se me quizeres alguma cousa e elle tambem, escrevam-me para Paris. Adeus.»

A senhora Anna do Carmo ficou aturdida. Queria fazer alguma cousa n'aquelle conflicto; mas que poderia ella fazer? A porta da rua, de mais a mais, estava fechada! Se o arcediago viesse... mas o arcediago não vinha antes das oito horas! Se arrombava as portas, o barulho dava que fallar aos visinhos, e o escandalo era certo! Mas, se o escandalo era certo, inevitavel, a pobre mulher lembrou-se de arrombar a porta, e procurar seu marido; mas aonde?

N'esta irresolução, a senhora Anna ouviu as oito horas. Correu á janella, e viu á sua porta alguns homens, um dos quaes abria a porta. Desceu abaixo, e perguntou quem eram:

—Sou um escrivão, com os meus meirinhos.

—Que querem?