A vingança do francez fôra uma vingança franceza; mas, de parte a parte, concordemos em que a honra orçava os mesmos quilates. Parece que eram dignos um do outro, e o arcediago digno de ambos, como vai vêr-se.
A mãe de Rosa vivia com o arcediago; mas tão cauta e escondida que se não deixava vêr. Era um cuidado inutil; porque ninguem duvidava que os braços do padre eram o refugio nato da esposa abandonada.
A immoralidade chegára aos ouvidos do bispo, que empregou os meios brandos para chamar ao caminho da bem-aventurança aquelle Lovelace de murça e meias vermelhas. O arcediago defendia-se como podia, e citava os seus traiçoeiros denunciantes para que lhe provassem a calumnia infame. Se fosse hoje, o senhor padre Leonardo Taveira teria escripto quatro correspondencias para os periodicos, em que provocaria os maledicentes a tirarem a mascara, ou serem convencidos de infamadores da honra alheia, e vis calumniadores, como é do estylo.
N'aquelle tempo, porém, o infamado não tinha o respiradouro da gazeta, e não podia andar de casa em casa apregoando a sua innocencia. Razão porque a detracção se incorporava pouco e pouco, até ser recebida como facto consummado.
Os conegos, que não eram mais virtuosos que elle, mostravam-se escandalisados das torpezas do seu collega, e queriam que o prelado os desultrajasse do odioso que reflectia na corporação. O bispo via-se entalado entre certos compromissos que o prendiam ao arcediago, e as instancias reiteradas do chantre, e do deão, que eram mais discretos nas suas torpezas, porque nunca tinham cahido na immoralidade de dotar as mães dos seus filhos para casarem.
A indignação pública urrou no paço episcopal; e o principe da igreja receou que a mitra lhe cahisse com deshonra da cabeça, e metteu o arcediago em processo.
Estas deploraveis scenas passavam-se, mezes depois que Rosa Guilhermina e a sua amiga vieram de Ramalde para o Porto. Rosa observava a inquietação de seu pae nas poucas horas que se demorava em casa. Interrogaram-no ambas muitas vezes, e não poderam saber nunca a afflicção que o atormentava.
O processo corria, quando o bispo deu uma audiencia secreta ao arcediago. O fim d'essa prática d'amigo, e não de juiz, era aconselhal-o, que fugisse immediatamente de Portugal, e que esperasse lá fóra que a borrasca serenasse, e depois viria.
O arcediago annuiu.
Com as lagrimas nos olhos, e sua filha nos braços, revelou-lhe que uma grande desgraça o obrigava a sahir da patria. Mandou-a entrar outra vez no recolhimento. Estabeleceu uma pensão a Maria Elisa. Deixou outra a Anna do Carmo, e partiu para Hespanha com todos os seus cabedaes, excepto as quantias que o honrado negociante Antonio José da Silva mensalmente devia repartir pelas tres, se eram só tres as pensionadas da illustre victima de padre João Pires.