Maria Elisa se dissermos que era uma litterata, não nos fica o remorso de ter mentido. A prova de que o era dá-se com bem pouco: basta dizer que duvidava da efficacia da reza, e dos preceitos mais fundamentaes da sua religião da infancia. Fallava na religião natural, e sabia de cór a Voz da Razão, e a Pavorosa illusão da Eternidade.

Rosa Guilhermina era litterata metade e mais um terço. Não acreditava na reza, nem nos sanctos da regente: mas tinha fé na existencia de Deus! Não era consummada como a sua amiga, que punha todo o desvelo em instruil-a e aperfeiçoal-a.

Era corrido um anno. As meninas entravam nos dezesete, e já não eram as creanças zombeteiras que traquinavam na cêrca, e irritavam as velhas da casa com travessuras.

Convencidas de que eram senhoras, revestiram-se da dignidade propria, deram-se um ar de pensadoras, mediam as suas palavras sentenciosas, olhavam com desdenhosa insolencia a ignorancia das companheiras, desdenhavam o beaterio de muitas que lhes não mereciam o favor das suas reflexões, e, com algumas, dignaram-se descer até lhes confiarem o segredo da philosophia, o dogma sublime da razão. Se quereis em duas palavras comprehender a illustrada extravagancia das duas meninas, sabei que o seu quarto era intitulado por ellas: hotel de Rembouillet.[1]

D. Rosa recebia regularmente extremosas cartas de seu pae, que não tinha expressões com que podésse encarecer o talento de sua filha, manifestado nas apparatosas cartas, que lhe enviava.

A ultima, que elle lhe escrevera de Madrid, annunciava a sua proxima vinda para Portugal. Bem informado, o arcediago sabia que as linguas mordentes dos seus inimigos estavam cansadas, e que o processo, ao cabo d'um anno, estava esquecido.

Depois da carta, que promettia a sua vinda, que devia abrir outra vez as portas da clausura ás litteratas, as anciosas meninas receberam outra em que o padre lhes dizia que, em determinado dia, viria abraçal-as, e que fossem dispondo a sua immediata sahida para Lisboa, onde elle tencionava estabelecer casa.

De igual theor recebeu a mãe de Rosa a fausta noticia, e cada qual não tinha socego em preparar as suas cousas de modo que se não fizessem esperar.

Era chegado o festivo dia. D. Rosa com a sua amiga, para não perderem tempo, já tinham feito as suas despedidas; Anna do Carmo tinha fóra dos bahús o indispensavel para as poucas horas de existencia no Porto; umas e outras não sahiam da portaria ou da janella para felicitarem o amante e o pae e o carinhoso protector, quando o senhor Antonio José da Silva rolou a sua rotunda personagem no pateo do recolhimento.

Rosa, ao vêl-o pelo raro, recuou assustada da inesperada visita. O negociante perguntou pela filha do arcediago de Barroso, e a porteira, industriada pela menina, perguntou-lhe se o senhor arcediago tinha vindo.