—O senhor arcediago—respondeu o negociante com a commoção de que era susceptivel—o senhor arcediago... está na presença de Deus...
—Morreu?!—exclamaram as meninas.
—É verdade... Faz favor de me chamar a menina.
—Estou aqui, senhor Silva... Pois é verdade que morreu meu pae?
—Desgraçadamente... Acabo de receber um portador de Madrid... As suas ultimas palavras, foram estas: «Eu morro... vão dizel-o á rua das Flores, no Porto, a um negociante chamado Antonio José da Silva. Morreu de uma apoplexia... Deus tenha a sua alma na bemaventurança...
—Isso é impossivel!...—atalhou Rosa, soluçando e chorando.
—Pois é tão certo como estarmos aqui, senhora D. Rosa... O peor é que o grosso dinheiro que seu pae levou, sabe Deus porque mãos andará a estas horas!...
—E eu fiquei pobre, não é assim?—atalhou a litterata, que considerava a riqueza como o primeiro dogma dos sublimes dogmas da razão.
—Pobre... não, senhora—respondeu o negociante, enxugando uma lagrima importuna.—A menina está perfilhada. Eu tenho a perfilhação em meu poder. Ainda mesmo que não appareça o dinheiro, que elle levou, o seu patrimonio vale bem quarenta a cincoenta mil cruzados. É a quinta de Ramalde, são dous predios na cidade, e as pratas de seu pae, que estão em minha casa, só essas valem bem seis mil cruzados, a olhos fechados. O que é necessario é fazer-se um conselho de familia, e bom será que a menina sáia do recolhimento para tomar conta da casa de seu pae.
Pergunta d'aqui, resposta d'acolá, convieram em que a menina sahisse, passados tres dias, durante os quaes recebeu visitas no seu quarto, e chorou alguns instantes sinceramente.