Maria Elisa, como philosopha e boa amiga, animou-a a resignar-se, convencendo-a de que a morte era a condição da vida, e que as lagrimas não resuscitavam ninguem. Rosa conveio n'isso em nome da illustração do seu elevado espirito, e assentou em mostrar-se intrepida na dôr.
Portador da infausta nova, o negociante foi dar o tremendo golpe na pobre esposa sem marido, e na amante sem amparo, que devia sentil-o mais profundo. Ahi, sim: havia uma verdadeira dôr, a consciencia de desamparo, a invalidez na quasi velhice sem refugio. Restava-lhe uma esperança: era sua filha; mas essa filha não lhe bebera o leite, não lhe sentira os beijos, não lhe vira as lagrimas, nunca lhe chamára mãe.
Por encurtar razões, o franco negociante foi-lhe dizendo que em seu poder não estava dinheiro algum, e que tractasse ella de procurar o amparo de sua filha que era a herdeira do arcediago.
Ao quarto dia, D. Rosa Guilhermina com a sua amiga occupavam a casa do Laranjal, tomavam as antigas criadas, e consultavam-se no que deviam fazer, ou se acceitariam as condições que algum impertinente tutor lhes impozesse.
—Eu não posso dizer nada em tal assumpto—respondeu Elisa.—Sou absolutamente estranha n'este objecto; não obstante, como tua amiga intima, entendo que não deves sujeitar o teu coração ás barbaras leis d'algum barbaro tutor.
Já vêem como era o estylo de Elisa; agora admirem o de Rosa:
—Dizes bem, minha terna amiga. Se a parca me roubou o pae, não serei ludibrio da morte, porque vivo ainda. Não quero mais reclusão, nem o convento para mim foi feito. Quero a liberdade, porque o meu coração é livre. Eu e tu temos bastante philosophia para nos sabermos guiar na estrada tortuosa do mundo. Conhecemos a sociedade pela leitura; saberemos evitar os abysmos, renderemos os nossos corações aos ardentes votos d'algum amor digno de nós, e viveremos juntas pelo espirito, assim como temos vivido pela intelligencia.
Fallou bem. Tudo, que dissesse depois disto, seria uma redundancia. Não ha nada a desejar aqui. Optima resolução, exemplar programma, e invejavel talento!
Nomeado conselho de familia, a orphã foi consultada pelo tutor, homem probo, escolhido pelo senhor Silva. A menina espivitada respondeu em alto estylo, e o tutor retirou-se maravilhado da pupilla, e disse em plena reunião dos membros do conselho de familia que ella era muito pronostica, e que fallava com cabeça. Os outros membros não duvidaram acredital-o, e consentiram em que a menina fosse entregue dos seus rendimentos, e vivesse fóra do recolhimento.
Contentes da sua sorte, as duas litteratas, cada vez mais ricas de sciencia, achavam já que o seu espirito não saboreava a simples nutrição dos romances, e queriam mergulhar no oceano da sabedoria. Talhavam o seu plano de instrucção; lastimavam a soledade em que viviam duas almas devorando-se no proprio fogo, e sentiam a falta de uma sociedade mais ampla que as admirasse, ou de espiritos illustrados que as conduzissem á luminosa região das sciencias ignoradas ao seu desherdado sexo.