Tudo isto era muito bonito; a tal respeito diziam-se cousas admiraveis, quando, no mais acalorado do projecto, D. Rosa Guilhermina Taveira recebeu a seguinte carta:
«Minha filha. Ignoras talvez que a morte de teu pae deixou n'este mundo uma mulher desvalida. Esta mulher é tua mãe, e terá brevemente necessidade d'um bocado de pão. Quando esse momento vier, não o negues á infeliz Anna do Carmo, que irá mendigal-o á tua porta. Vivo na rua Direita n.º 25.»
Esta carta, lida em sobresalto, produziu em Rosa uma sensação inqualificavel. Elisa, queria vêr esta carta, e a sua amiga não lh'a mostrava.
—Será namoro?!—perguntou Elisa com azedume e admiração—Diz, Rosa! tu não me respondes? Deixa-me vêr essa mysteriosa carta! É epistola amorosa?
—Não, minha amiga... É uma carta, que não te mostro!... Não devo mostrar-t'a...
—Oh céos! que estranha carta é esta! Não sou eu, por ventura, a tua amiga, a confidente dos teus segredos?
—És... mas ha segredos que se não dizem...
—Pois bem: eu calarei a minha ancia, e não farei jámais de amiga para todos os teus cuidados, Rosa.
O portador esperava a resposta.
A filha de Anna do Carmo sahiu de ao pé da importuna confidente, tirou da gaveta do seu tocador quatro cruzados novos, embrulhou-os em um retalho de sêda preta, entregou-os ao portador, sem lhe dizer palavra, e rasgou a carta.