[CAPITULO II]

Na tão indecente como attribulada situação, em que deixamos o senhor Antonio, veio encontral-o o padre Leonardo Taveira, que voltava de resar vesperas no côro da Cathedral.

O cálido negociante resfollegava como um tubarão, e improvisava uma ventoinha de meia fralda da camisa. Cada vez mais indecente! Valha-nos Deus, leitores, que muito amargo é o dizer a verdade inteira! Ha momentos em que o escriptor publico se vê forçado a córar. Se me visseis, n'este instante, julgar-me-ieis d'uma candura infantil.

O arcediago, porém, não se mostrou surprendido da attitude tragicamente afflictiva do seu amigo. Cálido tambem, despiu a loba, arremessou o cabeção, descalçou os sapatos de fivela, e refocillou os amplos pés vermelhos nos propicios chinelos do escarlate mercador de pannos.

—Fostes a minha desgraça!-regougou o senhor Antonio, abanando o ventilador com a mão esquerda, e enxugando com a toalha de mãos os humidos torcicollos do pescoço.

—Fui a tua desgraça! Pois que é?-replicou o beneficiado, tapando com o indicador da mão direita uma das ventas, para chilrear na esquerda uma solemne pitada.

—Que é? ainda m'o perguntas? É a tua filha que me faz de fel e vinagre! É uma ingrata que se me ri nas barbas, quando eu lhe faço meiguices!

—Ora deixa estar, que o remedio não está em Roma. Eu já te disse que sou pae, e tenho direitos sobre minha filha. Queres ou não queres casar com ella, Antonio?

—Perguntas-m'o agora que já não sei por onde me anda a cabeça!... Dava trinta mil cruzados, e queria que a tua filha gostasse de mim! Isto parece que foi inguiço, que me fizeram!...

—Eu te quebrarei o inguiço...