—Espere, senhora D. Angelica—disse Maria Elisa com burlesca formalidade.—Muito ha, ditosa irmã do mais ditoso Adonis, que eu suspirava por apascentar meus famintos olhos no manjar succulento das rosadas faces do snr. Antonio José da Silva, vosso mano, e querido meu. Vi-o uma vez. Vêl-o e amal-o foi obra d'um momento. Nunca mais meus olhos tristes provaram os carinhosos afagos de Morpheu. De noite era elle o meu pensamento; de dia o meu pensamento era elle; elle era de dia e de noite o sangue das minhas veias, o fogo ardente do meu coração, o nome mais appetitoso da minha lingua, e a lingua mais eloquente da minha alma.
—Está douda!... Resmungou a velha, voltando-se para Rosa.
—Douda!—disse Elisa—douda d'amor! Cupido, que me varaste o coração de ervada setta, porque não feres o coração de Antonio José?
—Está apaixonada por elle...—murmurou Rosa ao ouvido de Angelica, que principiava a acreditar a naturalidade daquella dôr sublime.
—Será verdade, Rosinha?
—Não vê como ella soluça.
Maria Elisa retirava-se com o lenço nos olhos para esconder o riso, na janella.
—Ella viu meu irmão?
—Viu, no pateo do recolhimento; e desde esse instante falla constantemente no objecto dos seus votos, que é seu irmão.
—Coitadinha!... É preciso dizer-lh'o a elle, que não vá a rapariga dar volta ao miôlo.