Nem se lembravam já da scena burlesca em que a snr.ª Angelica promettera apiedar seu irmão a favor da delirante Elisa. A vinda inesperada suscitou-lhes a desconfiança de que o snr. Antonio vinha colerico e enfurecido, reprehendel-as da galhofa com que receberam sua irmã, e talvez ameaçal-as de que, por ordem do tutor, Rosa outra vez seria obrigada a recolher-se, e de mais a mais separar-se da sua amiga.
A filha de Anna do Carmo não estava doente. Aquelle pretexto era o susto da desconfiança que assaltou a ambas. Ora Maria Elisa, menos timida, ou mais desenvolta, contra a vontade de sua amiga, não duvidou receber a visita do snr. Antonio, e preparava-se para chalacear as suas iras, se elle não viesse ás boas, como era de suppôr, ou ao menos a vaidosa Elisa tinha a sem-ceremonia de vaticinar.
Depois arrependeu-se de o mandar subir; e perguntava a Rosa a maneira decente de o despedir, sem ir á sala. N'esta consulta demoraram-se os cinco minutos, e resolveram, por fim, que seria mais discreto ouvil-o, e amacial-o, para que o maldito as não indispozesse com o tutor de modo que as forçassem a uma cruel separação. Elisa, inferior á sua galhofeira coragem, entrou acanhada na sala, justamente no momento em que o snr. Antonio dava o ultimo puxão ao collête, e limpava a terceira camada de suor que lhe envernizava as pandas bochechas.
O negociante ergueu-se, himpando, e levou ambas as mãos ao chapéo, que apenas levantou da cabeça meio calva.
—Ha de dar licença que me cubra—disse elle—porque venho suado, e sou atreito a catarrhos... Aqui corre o ar de encontro áquella porta, e não é lá das melhores cousas para quem traz os póros abertos.
—Esteja a seu bel-prazer, e queira sentar-se—disse Elisa, suspeitando ainda que, depois do brutal cumprimento, viria a trovoada dos brutaes insultos.
—Então a Rosinha diz que está constipada?
—Bastante enferma. A minha amiga tem uma compleição melindrosissima.
—E pouco tino tambem. Quando ella esteve comigo era uma desacautelada; levantava-se do calor da cama, e vinha com o saioto pela cabeça acocorar-se na varanda a brincar com a gata... Diacho da gata! era tão amiga d'ella que não viveu muito depois que a não viu em casa! Ha bichos, que só lhe falta a razão, que no mais parecem mais amoraveis que as proprias creaturas com alma! A boa da gata ia-se pôr á porta do quarto d'ella a miar miau, miau, miau, e, a final de contas, não queria comer, nem beber, até que appareceu morta no telhado do visinho...
—Misera gata! que infeliz morte!