—Bem me parecia a mim, que andava aqui alguma mastigada!... Agora vejo eu porque não queria casar com meu irmão, snr.ª Rosinha... É uma boa amiga da sua amiga. Deixe estar, menina, que talvez ainda sejamos cunhadas... E, com isto, vou-me embora que são horas... adeus...
—Vá, mensageira d'amor!—disse Elisa—Propicios céos meus votos abençoem, e os seus desvelos galardoem.
Ausente Angelica, seguiu-se uma tremenda gargalhada, em que estalaram os espartilhos ás duas azougadas moças.
[CAPITULO XIII]
Dous ou tres dias depois (parece-me que foram tres: aquillo de que eu não estou bem certo não affirmo), ás onze horas da manhã, mais minuto, menos minuto, estava á porta da snr.ª D. Rosa Guilhermina Taveira, o snr. Antonio José da Silva limpando o suor, e puxando para o abdomen o coz do rebelde collête de velludo preto, que lhe marinhava em rofêgos pelo estomago.
Arranjadas assim as cousas do seu logar, o negociante puxou a campainha, e perguntou se podia fallar á snr.ª D. Rosa. Responderam-lhe que a menina estava na cama curando uma constipação. Disse que queria fallar á snr.ª D. Maria Elisa, e mandaram-no subir, o que elle fez, puxando, com ambas as mãos, o indomavel collête, que subia a ponto de descobrir o coz das ceroulas, as quaes rebentavam comprimidas pela arquejante barriga de seu dono.
Esperou alguns minutos, que lhe não foram penosos, porque os aproveitou mirando-se em um espelho de sala pendurado defronte da sua cadeira. Conversando com a sua imagem, o snr. Antonio perguntou a si proprio se era elle por ventura o venturoso amado que apaixonára a amiga de Rosa a tal ponto que a virtuosa Angelica (apesar da lingua damnada da Anna Canastreira) escrupulisava, não esgotando da sua parte todos os esforços para que elle Antonio José annuisse, como homem e christão que era, ao suspirado casamento.
Esta era a primeira parte do monologo do negociante. A segunda, porém, era mais dramatica. O homem tinha pundonor como outro qualquer. Despresado pela filha do arcediago (que Deus tenha em sua sancta gloria) resignára-se, mas não se esquecia do ultraje immerecido. Pensára muito na vingança; mas não sabia com que armas nobres devia vingar-se. Se elle quizesse desforrar-se com deshonra para a sua consciencia, não lhe faltariam occasiões como a que tivera, pouco antes, na qualidade de amigo intimo do curador dos orphãos. Quizesse elle, e Rosa não sahiria do recolhimento. Mas o snr. Antonio José da Silva era um homem honrado, temente a Deus, supposto que peccador, e incapaz de vingar-se vilmente. O desforço, que elle ambicionava, devia ser cavalheiroso, e digno de especial menção no romance, que, trinta annos depois, devia occupar-se da pessoa do snr. Antonio, digna, a todos os respeitos, de fazer gemer os prélos, e dar consumo ao papel das nossas fabricas, interesse duvidoso aos editores, e não sei que migalhas a mim, humilde apologista de todos os Antonios, maiores que o seu seculo, e credores da immortalidade.
Era chegada, pois, a occasião d'este appetecido desforço. O negociante era amado, e amado pela intima amiga de Rosa, tão nova e tão gentil como ella. Antonio José da Silva, dispensador de graças do seu munificente coração, prodigalisaria extremos á sua amante ditosa, na presença da despresada ingrata, que se morderia de raiva. Ostentaria caprichosamente os seus ardores de amante e marido no sumptuoso luxo de sua mulher. Rosa ficaria levadinha da breca (esta phrase é d'elle genuina) quando não podesse hombrear com os calcanhares da outra. Ora aqui está no que pensava o snr. Antonio, durante os cinco minutos que esperou na sala, não lhe esquecendo de conter nos seus justos limites o collête, que parecia de borracha, porque apenas se via livre dos dedos impertinentes de seu dono, saltava logo para o pescoço, deixando mal velado o promontorio das regiões adjacentes, por não dizer sempre barriga, que é uma palavra que me destôa, e fere os ouvidos pudicos do sexo por excellencia.
No decurso de cinco minutos, que faziam as duas amigas? Estavam perturbadas pela surpreza de similhante visita.