—Póde estar certa d'isso. Eu sei como se tratam as pessoas. A gente póde gosar a sua riqueza sem andar á compita com as grandezas dos fidalgos. Isso é que é asneira. Os fidalgos arruinam-se, e vivem por ahi sabe Deus como, atraz de mim e dos outros, que lhes damos a juro o nosso dinheiro, para as mulheres gastarem em velludos, assembleias, e theatros. Dizia o meu amigo arcediago, que quem sahe fóra da sua classe não tem classe nenhuma. É cá uma ideia que eu aprendi de cabeça, e acho isto bem dito: quem sahe fóra da sua classe não tem classe nenhuma.

—É um axioma.

—Que é?

—É um axioma, uma maxima, uma eterna verdade.

—Isso é. Um negociante é um negociante, e um fidalgo é um fidalgo. Andam ahi de carruagens uns tres cá da minha classe, que querem hombrear com os fidalgos, e mais hoje ou mais amanhã verão onde vai parar o negocio.

—Pois v. s.ª abomina a carruagem?

—É cousa em que nunca andei. Parece-me que aquillo não ha de dar grande saude ao estomago! Tombo para aqui, tombo para acolá, quem fôr nutrido como eu ha de por força soffrer dos bofes.

—Engana-se... A agitação, causada pelo balanço da carruagem, é saudavel.

—Devéras?! acho que não!

—Queira acreditar-me. Eu tenho lido varios authores de medicina, que recommendam o uso da carruagem ás pessoas nutridas, como meio de evitar as apoplexias.