—Foi... Pois tu crês que a mulher se degrada por prazer, sem que a violentem a isso?! Quem faz a mulher desgraçada e despresivel na sua desgraça é o homem. Tenho pensado muito no que fui para explicar o que sou...

—E, se elle te amasse hoje, Ricarda?

—Se me amasse hoje, despresal-o-ía, porque não poderia amar outro homem, depois que te conheço.

—E se eu te despresasse?

—Se me despresasses, morreria, matava-me.

—Não morrerás, minha filha...

João da Cunha abraçou-a com vehemente transporte. Colou-lhe os labios ardentes no collo de encantadora nudez, sorvendo-o em beijos deleitosos. Ella deixou-se inclinar para o seio d'elle, como desmaiada em ebriedade de ternos{14} deliquios. Toda esmorecida e alquebrada, os proprios olhos, sempre fogo, pareciam apagar-se, para que a morbidez das palpebras, pendendo amortecidas, dissessem ao sequioso amante que aquelles olhos se fechavam para não verem o passado, e deixavam ao coração, estreme de remorsos, o goso das delicias do momento.

O marido de Ricarda deu um passo para distinguir os vultos entre as frondes da amoreira. O prazer devêra têl-os aturdidos para não ouvirem esse passo, e dous que se seguiram. Aquelles braços não se desenlaçavam. O extasis poderia ser apenas um extasis de dous amantes que se perdem nas altas regiões do puro espirito; mas o brazileiro, na sua phantasia allucinada, imaginou um crime, que deveria deixar-lhe a elle um remorso eterno, se o não interrompesse com a morte.

Duas balas voaram de duas pistolas. Ouviu-se um grito. Ricarda levára a mão ao seio. João da Cunha corrêra atraz d'um vulto que rompia a direito as murtas do caramanchão em precipitada fuga. Mas, já perto do assassino, sentiu uma dôr agudissima no hombro direito e esvahimentos de cabeça.

A este tempo, o brazileiro era preza de dous enormes cães, que o filaram no momento que elle lançava a mão a uma viga da parreira por onde descêra. Os cães laceravam-no, saltando-lhe ao peito. O indefeso moço arremessára as pistolas inutilmente aos cães, que redobravam de furor.