Os criados de João da Cunha, ouvindo os tiros, correram na direcção. Encontraram o cadaver de Ricarda, e alguns passos distante, seu amo que dizia em voz desfallecida: «matem esse assassino, que me matou.» Correram onde latiam os cães. Viram um homem encostado ao muro defendendo-se dos saltos d'elles com as pernas, que retiravam sempre cravejadas por uma nova dentada. Não seria preciso o braço d'outro assassino, se a lucta se demorasse entre as feras e o brazileiro quasi morto de cansaço, e derramamento de sangue. A missão dos cães acabou quando principiou a dos homens. Duas choupadas no peito abriram mais larga fenda ao sangue. Mataram-no sem resistencia.{15}
Eu esbocei com repugnancia este quadro. Será demasiada fidelidade dizer-vos que a sepultura do brazileiro foi os oito palmos de terra, onde cahiu morto? Ainda bem que os cães o não devoraram a pedaços como um passatempo durante a noite. Ricarda foi enterrada no cemiterio, de noite, de combinação com o parocho. Os criados conduziram á sege João da Cunha, que não quiz retirar-se sem reconhecer o assassino.
Dizem que beijára as faces mortas de Ricarda, e derramára algumas lagrimas, que lhe fazem muita honra.
A sege que o conduziu, tornou a Campolide para transportar ao palacete do Campo-Grande um menino d'um mez nos braços da ama.
João da Cunha beijando o neto que seu filho lhe entregava, na supposição de que o ferimento era mortal, dizia lá comsigo:
—Parece filho de mulata! Bem me disseram a mim de Coimbra que meu filho fugira com uma!
João da Cunha foi curado em poucos dias. A bala quebrára-lhe a clavicula direita e sahira sem ferir algum vaso importante. O enfermo deixou-se tratar, e não consta que tentasse romper o apparelho para se escoar de sangue.
—Queria viver para o seu filho.—É como elle explicava o desejo da vida.
Isto passou-se em 1813; e o romance começa em 1838.