Já sabem que o filho de Ricarda é Luiz da Cunha e Faro, que apeou á porta do theatro de S. Carlos.{16}
[II.]
[O FRUCTO DA SEMENTE AMALDIÇOADA.]
João da Cunha era, pouco mais ou menos, o que são todos os homens. O seu coração, viuvo do amor de Ricarda, vestiu lucto um anno. O choque fôra muito forte, para que a mais robusta organisação se não resentisse, longo tempo. A convivencia, com homens que não conheciam os precedentes da sua mysantropia, não a procurava. Vivia só, com seu pae, e com seu filho. Recordava a ephemera felicidade de alguns dias, rematados por uma hora de sangue. Ora, estas recordações, por que foram muito repetidas, pouco a pouco enfraqueceram, e o coração familiarisou-se com ellas. O que primeiro fôra terror, veio, depois de um anno, á brandura das reminiscencias que não mortificam, porque o tempo é o principio gerador de imagens novas que desfazem sempre as impressões das velhas. O ferro abre profundos sulcos no cortix da arvore: depois, as fibras da camada, vigorosa de nova seiva, passam por cima, e deixam como signal uma cizura imperceptivel.
Dous annos depois da catastrophe, João da Cunha não fugia das aventuras que o perseguiam. Riqueza, talento, e fidalguia, afóra os dotes physicos, auctorisavam-no a não deixar aos vinte e dous annos uma carreira que encetára com tão má fortuna.
Do seu coração, repartido por muitas paixões passageiras, nunca usurpou a seu filho a maior parte.
Em quanto elle crescia em corpo e extraordinaria penetração, o pae, que não sabia sêl-o, alargava-lhe os desejos, adivinhando-lh'os, e prohibia á ama, aos mestres,{17} e ao avô a mais ligeira contrariedade ás vontades caprichosas do menino.
Luiz, aos doze annos, era um despota com os criados, com os mestres, e tratava o pae como se trata um irmão, quando não ha a recear a correcção paterna. João da Cunha gostava da desenvoltura do pequeno, e ufanava-se de leval-o, como maravilha, á sociedade dos homens e mulheres do grande mundo, que lhe achavam muito sal nas suas respostas, e não córavam ás galhofeiras liberdades do pequeno Ismael, como lhe chamavam, alludindo á desconhecida Agar, que o sol da Africa bronzeára.
Luiz era tanto mais caro a seu pae, quanto a sua intelligencia, com pequeno esforço, aproveitava nas irregulares lições dos mestres soffredores. Aos quinze annos, o filho de Ricarda era homem, e, como homem, as puerilidades, as folias que o entretinham até aos quatorze, trocaram-se em ar reflexivo, em consciencia de si proprio, e até em certo respeito ao pae, supposto que este lhe não invectivasse as licenças, que os de fóra lhe censuravam.
—Eis-aqui o que é o espirito!—dizia João da Cunha ao seu capellão, que muitas vezes agourára mal da livre educação dada a Luiz—Assim que chegou á idade da razão, ahi está meu filho obedecendo espontaneamente ao instincto dos deveres. Não o vê tão pensador n'uma idade em que a imaginação trabalha sempre?