—Vê como sou infeliz?
—Infeliz!... qual de nós é mais?
—Tão infeliz que faço mal a quem eu quizera dar todas as felicidades da terra, se tivesse a omnipotencia d'um Deus.
—O mal que me faz... poderia converter-se, se Deus o quizesse, em ventura de ambos...
—Poderia!... eu bem sei que podia... Snr.ª D. Marianna... eu devera têl-a encontrado no principio da minha juventude.... Eramos hoje tudo que o desejo póde imaginar de mais feliz, de mais invejavel... Segue-se que é mentira aproximarem-se os entes que o destino talhou para se unirem... Quando se encontram, já a desgraça os traz desfigurados; vêem-se, e não se conhecem; fallam-se, e não se comprehendem; abraçam-se, e sentem-se frios como a pedra de um tumulo, como dous cadaveres, que se levantam, a par, da mesma campa...
—E é o que nós somos um para o outro? Julga-me tão mal, senhor Luiz da Cunha!
O filho de Ricarda ergue-se impetuosamente, dá quatro passeios no tombadilho, afastando os cabellos da testa, e pára defronte da viuva, com attitude o mais ridiculamente sinistra que póde imaginar-se.
—Senhora D. Marianna!
Ella fixou-o, erguendo-se tambem assustada.
—Senhora D. Marianna! ouve uma voz celeste, que a manda salvar-me? É o instrumento sobrenatural do meu anjo de redempção? Responda...