O filho de Ricarda recebeu a ordem dos seis contos de reis, fechada n'um envolucro em branco, qual o padre Madureira a entregara. Dentro d'esse envolucro, junta á ordem, estava uma carta designada a Luiz da Cunha. Abriu-a, e leu:{123}
Luiz da Cunha foi remido da ignominia, do degredo, da fome, e da morte por Assucena. Se esta certeza lhe não valer um arrependimento nobre, sirva-lhe ao menos de vergonha perante a sua consciencia.
A perplexidade do promettido esposo de Marianna durou poucos segundos. D'aquella alma já não era possivel arrancar vergonha nem remorso. O padre Madureira enganára-se. Queimando a carta, Luiz da Cunha entendeu que o segredo voava nas cinzas d'ella. Estabeleceu tranquillas conjecturas ácerca da riqueza de Assucena: d'onde lhe viriam perto de quarenta mil cruzados?
Occorreram-lhe hypotheses, quasi todas ignobeis, e sordidas. E, como nenhuma era mais provavel que as outras, Luiz da Cunha resolveu, um dia, embolsal-a d'esse emprestimo.
Hospedado em casa d'um tio de D. Marianna, a sua vida, posto que inactiva, era regular, e bem procedida. Não aceitou apresentações nas salas da boa roda, porque D. Marianna as não frequentava, como viuva. Visitava-a todos os dias em familia. Escrevia-lhe todas as manhãs, e recebia de tarde o menino, que era o pretexto para a entrega das cartas.
Viuva de onze mezes, D. Marianna, administradora da sua casa commercial, declarou, por delicadeza, aos parentes, que, passado o lucto, casava com Luiz da Cunha. Não se oppozeram estorvos, que seriam inuteis. O noivo era bemquisto: informações de Portugal era tarde para havel-as: o astuto soubera dirigir o plano de modo que se não pedissem a tempo.
Casaram.
No dia immediato espalhára-se no Rio que D. Marianna casara com um infame aventureiro, fugido de Portugal, depois que os seus crimes lá não cabiam.
Esta terrivel nova fôra levada pelo capitão da galera, que se informára em Lisboa, para saber se Luiz da Cunha seria o que parecia no primeiro dia de viagem, ou nos outros.
Era tarde. O mais que podiam os interessados na felicidade de Marianna era verem desmentida a calumnia, ou confirmado o boato pelo procedimento do marido.{124}