[XIII.]

[EXPLOSÃO DA INFAMIA REPRESADA.]

Eram passados tres mezes. Não havia razão nenhuma para acreditar a fama, confirmada por ulteriores indagações. Luiz da Cunha não desmerecêra nada nas esperanças de Marianna, e vivia á mercê da vontade d'ella, que era a primeira a lembrar-lhe os bailes, o theatro, e os passeios, que o bom marido frequentava com ar de aborrecido.

Os que tinham como certos os escandalos de Luiz em Portugal, estavam com elle em suspeitosa guarda, não querendo acceitar como possivel a sua emenda. Andava aqui inveja da avultada riqueza que a fortuna da caprichosa lhe déra; o todo, porém, d'esses cabedaes, em terrenos e predios urbanos, não podia considerar-se propriedade alienavel da viuva, que era simples administradora de seus filhos. Ainda assim, a sua meação avaliavam-na em cem contos de reis.

Como quer que fosse, Luiz da Cunha estava rico. A administração economica da casa, em poucos annos, podia dobrar o que era legitimamente seu por mutua escriptura.

O marido de Marianna chegou a acreditar na sua regeneração. Sabia das suas intimas confidencias que de todas as mulheres a que menos amava era a sua; mas tambem não sentia os imperiosos estimulos de procurar emoções nas outras. A paz, as commodidades, o luxo, a consideração, bem-estar que nunca experimentára, agradavam-lhe. Constavam-lhe as informações idas de Portugal,{125} e queria, até por capricho, desmentil-as. Signal era de que a opinião publica alguma cousa valia já na sua. Este symptoma enganaria o mais sisudo physiologista do coração, quando o proprio Luiz da Cunha acreditava na estranha reforma das suas tendencias.

Basta dizer-vos que D. Marianna chamava-se feliz, e alardeava com soberba a sua boa escolha na presença dos que faziam côro com a maledicencia, mordendo a reputação de seu marido.

Deliciosos tres mezes!

Mas ao quarto.... Porque não morreu aquella pobre senhora no terceiro? Porque não se aplacou o inexoravel destino d'aquelle homem? Porque ha de ser tão brutal, tão despota a desgraça atirando abaixo das felizes illusões a victima a que deu trégoas d'alguns mezes?

Mas, ao quarto, Luiz da Cunha viu uma dançarina no theatro, e fixou-a com tal curiosidade, que o coração de Marianna palpitou dolorosamente. Quiz desviar-lhe a attenção da perigosa mulher, e não pôde. Quiz, no dia seguinte, com um subtil pretexto, sahir para os arrabaldes da capital, mas seu marido, com pretextos ainda mais subtís, adiou a sahida.