A dançarina era franceza. Tinha a seu favor todos os demonios alados da seducção. Era fresca como um ramalhete de camelias. Tinha os olhos mais maliciosos, mais voluptuosos, mais zombeteiros que podem descender de uma costella do homem, amputado no seu barro primitivo. As pernas tão expostas á avidez da analyse, não invejavam a correcção proverbial das de Diana caçadora. Nos braços, d'um setim transparente, destacava-se a rêde das veias azuladas, onde o sangue buliçoso vos deixaria suspeitar se eram aquelles os braços roubados á Venus de Milo. O pé, que nenhuma sevilhana teve nem mais pequeno nem mais arqueado, obedecia ao frenesi das evoluções, ou encontrava o dente da tarantula, cada vez que tocava o invejado pavimento do palco. Era a Paquita que Asmodeu inventára para Cleófas. Era a creatura de Lucifer em competencia com as creaturas de Deus.
Luiz da Cunha não experimentára ainda as paixões tempestuosas do theatro, a mordedura d'esses desejos enfurecidos pelo ciume de muitos concorrentes, essa garganta{126} que sorve com o ouro as illusões nobres do coração; emfim, essa vertigem, que faz de um amor vendido um triumpho á custa do desdouro em publico, e das lagrimas no recinto domestico.
Era forçoso ao homem de todas as situações conhecer esta.
Marianna não precisava de mais provas; eram desnecessarios os avisos das suas amigas: uma boa esposa está muito perto do coração de seu marido; a sombra de uma ligeira infidelidade sente-se logo no escurecer da alegria tranquilla que se lhe irradia dos olhos enxutos. Vem logo as lagrimas accusarem o que os labios não accusam. Vem a pallida melancolia enturvar os sorrisos descuidados da dôce paz.
Era assim que ella se queixava de Luiz da Cunha, que parecia estranho a essas timidas manifestações de ciume. Se os labios deixavam passar um gemido, ninguem a consolava, porque não queria testemunhas. Luiz costumava enrugar a testa com fastiento gesto aos suspiros repetidos de sua mulher.
Entretanto, o allucinado empregava todos os processos conhecidos para satisfazer a ancia pertinaz. Fez grandes offertas de dinheiro, repellidas sempre. Cortejou a bailarina, valendo-se umas vezes da brandura hypocrita, outras da violencia natural. Nem de uma, nem da outra maneira. Ao lado da franceza estava um amante, francez tambem, caprichoso, ciumento, e espadachim. Luiz da Cunha fôra ameaçado por elle, e conteve-se em quanto as esperanças lhe não falliram.
Marianna já transigia com a infidelidade; mas não queria vêr-se sacrificada, no coração do esposo, ao amor sensual d'uma mulher sem alma. Os seus amigos lamentavam-na; os infamadores tenazes de Luiz da Cunha batiam as palmas. A infeliz tentou uma dolorosa lucta comsigo mesma. Advertiu seu marido do que se dizia; pediu-lhe que não désse aos seus inimigos o prazer de o apregoarem tal qual as informações de Lisboa o pintavam.
Luiz da Cunha riu-se, dizendo com grosseira altivez, que os seus inimigos podiam ser atados em feixe com um chicote, e mandados de presente ao diabo.
As promessas redobraram, e a bailarina cahiu do pedestal{127} do capricho, onde quizera ter-se como em pedestal de virtude.
Cedeu, e com tanto escandalo que na noite de proximo theatro, em pleno espectaculo, Luiz da Cunha recebeu do rival uma bofetada na face, á qual respondeu com chicotadas, que lhe deram a primazia na lucta. Tratou-se um duello, que Luiz da Cunha disse não aceitava, porque era filho de um dos mais nobres fidalgos de Portugal, e não media o seu florete com um troca-tintas da França. O francez, dias depois, abandonava o Rio para evitar um assedio de traiçoeiros punhaes, comprados por Luiz da Cunha.