A bailarina estava sob o exclusivo dominio do novo amante. O seu fausto centuplicou em grandeza. Prendas d'um valor enorme, arrancadas pela prodigalidade do ouro a especuladores astuciosos, eram o preço da escandalosa rival de Marianna.

Os amigos d'esta, finda a estação do theatro, expulsaram a dançarina, com artificiosa violencia, ou por dinheiro que Marianna deu como se o restabelecimento da sua ventura dependesse da ausencia da franceza.

Luiz da Cunha foi surprendido pela fuga da segunda Liberata que lhe tocára o coração. Disfarçou a affronta em publico; mas, de portas a dentro, desforçou-se do ultraje despresando Marianna. Esta mulher era sublime! Quiz convencer a sociedade de que era outra vez feliz, para readquirir o bom nome de seu marido.

Luiz da Cunha comprehendeu-a, deu ares de compadecido, fez sobre si um esforço, e convenceu-a do seu arrependimento. Vejamos porque.

Dois mezes depois, Marianna era outra vez ditosa. O detrimento que a sua casa soffrêra, estava remido. As dissipações com a mulher do theatro, posto que exorbitantes, não doiam no coração da nobre senhora. Esses calculos deixava-os ella á curiosidade dos mesquinhos louvados dos seus haveres. O que ella queria era o coração de seu marido, e esse capacitou-a elle de que fôra sempre seu, até mesmo na embriaguez vertiginosa d'essa fatal loucura com a franceza.

Chegou a primavera, e Luiz da Cunha projectou com sua mulher uma visita ás primeiras capitaes da Europa.{128} Marianna desejava vêr Paris, Veneza, e Londres: não queria, porém, tornar a Portugal. O marido conveio da melhor vontade na excepção, e partiram.

Em Paris, mal se hospedaram, Luiz da Cunha sahiu a colher informações da dançarina Carlota Gauthier. Fôra escripturada para Madrid. Em breves dias viu com sua mulher os objectos menos notaveis de Paris. A impaciencia ralava-o. Inventou uma epidemia para retirar-se, e prometteu a Marianna voltar.

Em Madrid foi acolhido por Carlota, que não teve pejo de receber o abandonado amante, phantasiando a violencia com que fôra arrastada a bordo a uma embarcação.

Luiz propôz-lhe abandonar o theatro, a troco de doze contos de reis annuaes. O seu desenlace devia ser immediato: nem uma só vez appareceria no palco. Luiz da Cunha evitava assim que sua mulher visse a bailarina, e explicasse a viagem á Europa, e a sahida precipitada de Paris.

Carlota aceitou: rompeu as escripturas; e o amante pagou a condemnação.