Furtando-se poucos instantes á companhia d'ella, Luiz da Cunha escrevêra a Carlota ordenando-lhe que o esperasse em Veneza, mas desconhecida, com um pseudonimo, porque assim convinha á tranquillidade de ambos.{132}
Quando, pois, D. Marianna, cheia de jubilo, sahia para Cadiz, a dançarina, nomeando-se Julia Lamotte, chegava a Veneza, e isolava-se n'um hotel, sacrificando a publicidade, que tão grata lhe era, á prestação annual de sessenta mil francos, dos quaes apenas recebêra em Madrid cinco mil.
Em Veneza, um dos primeiros homens que Luiz da Cunha encontrou, fixando-o com ar provocador, foi o francez, que fugira aos sicarios escravos do amante de Carlota. O brigão que partira a cabeça ao visconde de Bacellar, e acutilára o mestre de esgrima, tinha tanta maldade como bravura. Não se apavorou do gesto ameaçador do francez, rodeado de francezes. Caminhou para elles, com duas pistolas engatilhadas, na presença de sua mulher, que permanecêra estupefacta sem atinar com a causa nem com o desenlace d'este estranho encontro. O grupo dos francezes, os homens mais delicados do mundo, respondêra com um sorriso á arrogancia de Luiz. Um d'elles, approximou-se de Marianna, com o chapéo na mão, e disse-lhe com affectuosa urbanidade:
—Sabemos respeital-a mais que seu marido. Não receie consequencias tristes. Os aggredidos são cavalheiros.
Luiz da Cunha, depois da ridicula provocação, metteu as pistolas nas algibeiras, deu o braço a sua mulher, e saltaram na gondola que os esperava.
Marianna pedira inutilmente a explicação d'aquelle successo. O marido evadia-se ás perguntas, dizendo que detestava os francezes, e imaginára que um d'aquelles o escarnecêra.
Deu-se um encontro que respondeu ás apprehensões da brazileira.
A gondola ia abicar na ilha de S. Lazaro, ao mesmo tempo que desatracava outra gondola com uma dama, e um jokei. A perturbação de Luiz não foi visivel para sua mulher, que não desviava os olhos pasmados da face da dama, que se approximava na direcção da sua gondola. Já perto, Marianna fez-se livida, convulsa, encostou-se, quasi esvahida, ao braço do gondoleiro, repellindo o de seu marido, e, ajudada a saltar ao caes, sentou-se, murmurando:
—Como eu sou desgraçada, meu Deus!{133}
Acontece que um mau marido, repetidas vezes surprendido em flagrante por sua mulher, indignado contra a má fortuna dos planos, volta-se contra ella, por não poder vingar-se do demonio invisivel que lh'os frustra. Esse tal, em quanto uma ardilosa desculpa o póde justificar, transige com as lagrimas da esposa, e finge serenamente a contrição; mas, se a contumacia no crime, todas as vezes descoberto, lhe inutilisa as invenções refalsadas, e o exautora de prometter emendar-se, o que até alli eram brandas desculpas converte-se depois em odio ás algemas, em emancipação do jugo, em crime sem pretexto, nem escusas. É o cynismo que se desmascara. É a impostura que se revolta contra o clarão da verdade.