Para ser-se tal não importa ser menos perverso que o marido de Marianna. Luiz da Cunha, se n'aquelle instante devia odiar a imprudente Carlota que não evitára tal encontro, irritou-se contra as lagrimas de sua mulher, que não proferira uma só palavra offensiva, nem, sequer, queixosa.

—Vamos—disse elle com aspereza.

Marianna ergueu-se, quiz aceitar o braço de Luiz, e não pôde suster-se.

—Não posso.—E sentou-se.

—Se não pode, tornemos a entrar na gondola.

—Pois sim.... Não te zangues, Luiz, que não te fiz mal nenhum. Se é a minha presença que te impacienta... pouco tempo te enfadarei... Vamos...

Estas palavras, quasi ditas como um segredo, para que o gondoleiro as não escutasse, não commoveram Luiz. Pelo que no rosto se lhe via, era mais de crer que lhe exacerbassem a cólera. As contracções da testa, o morder dos beiços, o arfar das azas do nariz, os impetos das mãos aos cabellos e ao bigode, denunciavam a subita renascença de toda a perversidade do coração que lhe atirava golphadas de sangue negro á face.

D. Marianna como dias antes em Madrid, fugia de encontrar semelhante aspecto. Alguma cousa havia ahi que só póde vêr-se e imaginar na cara assignalada pela predestinação do patibulo!

Os frageis vinculos de respeito que prendiam marido e mulher estavam partidos. Desde esse dia, Luiz da Cunha{134} seria escandaloso sem justificar-se; imporia silencio a Marianna; fruiria todos os direitos da infamia sem empecilhos, nem covardes explicações dos seus actos.

O programma d'esta nova phase vamos nós ouvir-lh'o no Albergo di Italia. D. Marianna está encostada ao peitoril d'uma janella, com a face apoiada na mão direita, com os olhos, brilhantes de lagrimas, fitos na lua que se levanta sobre o Lido, purpureada como os arreboes que bordam o horisonte das montanhas tyrobanas.