Marianna já não ignorava nada. A preta dedicada para apressar a fuga, como taboa de salvação para sua ama, espreitava Luiz, ou pagava a quem lhe espionasse os passos, que não careciam de espionagem. Cahira extenuada de soffrimento no leito, ao pé do qual seu marido passava o tempo necessario para calçar umas luvas, quando sahia de manhã para vir, se vinha, jantar á noite. Luiz da Cunha aconselhava-lhe os passeios, e para isso lhe vestira um jokei que a acompanhasse, e lhe déra plena liberdade de gosar, na sua ausencia, não só os prazeres do lympido ceo, mas os da terra que valiam bem a pena de sahir dos amúos que a molestavam.
Uma ironia por consolação! Um escarro nas faces cadavericas da infeliz!
Uma tarde, quinze dias depois que D. Marianna escrevêra ao ministro brazileiro, chegou a Veneza o primeiro addido d'aquella embaixada, e procurou no hotel uma senhora brazileira.
Marianna ergueu-se para recebêl-o, e soube que era elle o encarregado de dispor a sua sahida para o Brazil. O addido, em poucas horas, colhêra ácerca de Luiz da Cunha as precisas informações: assim lh'o ordenára o ministro para não annuir imprudentemente ao capricho de uma senhora casada. As informações eram muito peores{138} do que a ultrajada esposa fizera saber ao ministro, velho amigo de seu pae, e de seus tios.
Um navio estava prestes a fazer-se á vela para o Rio de Janeiro. Marianna apenas tinha tres dias para preparar-se. Na sua situação, tres horas seriam de sobejo. O addido devia retirar-se de Veneza, quando o navio tivesse sahido. Marianna não hesitou, nem pediu delongas.
Acabava de sahir o addido, quando Luiz da Cunha entrou. A brazileira estava chorando.
—Minha amiga—disse Luiz—tinha tenção de jantar comtigo; mas, se me dás môlho de lagrimas, retiro-me.
—Eu é que não aceito o teu convite. Retira-te, se queres, que eu não janto hoje.
—N'esse caso, não jantarei só... Como estás?
—Boa.