Marianna ergueu-se. Tal era a placidez do seu semblante, que nem os gritos brutaes de Luiz lhe alteraram a pallidez. Passou por diante d'elle com os olhos no chão. Entrou no seu quarto, onde encontrou chorando a escrava que a creára, e lhe creára os filhos. Era uma amiga. Lançou-se nos braços d'ella, suffocando os soluços.
Luiz da Cunha sahira.
—Não se deixe morrer, minha senhora—disse a escrava.
—Deixava-me morrer, se não tivesse os meus filhos. Quero viver para elles e... é preciso fugirmos, Genoveva.
—Fugirmos!
—Sim, senão, este homem mata-me, ou eu morro de desesperação.
—Como ha de a gente fugir? Não conhecemos aqui ninguem...
—Pela manhã has de levar ao correio uma carta para o ministro do Brazil em Vienna. Vou escrevêl-a. Se vires entrar esse homem, avisa-me...
A carta para o ministro brazileiro seguira o seu destino.{137} D. Marianna, se podésse rehavêl-a uma hora depois, sustaria o seu desesperado projecto de fuga. A infeliz illudira-se. O coração d'esta mulher não deixára sahir o amor pelas feridas das incessantes punhaladas. Luiz da Cunha, o homem de um anno antes, imaginára-o ella sob a influencia de algum diabolico prestigio da dançarina. Não podia conceber semelhante mudança! Não podia capacitar-se da ignominiosa tolerancia que elle lhe offerecêra! Amava-o ainda.
Mas elle não a deixava muito tempo illudida. O seu proceder parecia um proposito para desenganal-a. Indifferença, desprêso, e até abandono de dias inteiros, seguiram-se ao ultimo dialogo que lhe ouvimos. Já não rebuçava a affronta, nem pretextava sahidas. Á hora do dia, embalava-se com Carlota nas gondolas de Rialto, e mostrava-se com soberba impudencia, ao lado d'ella, ao fim da tarde, na Ponte dos Suspiros.