—Parem, quando não mato-os!—exclamou Luiz.

—Pois atira, miseravel!—disse um dos tres.

Os gatilhos bateram duas pancadas surdas. Luiz recuou,{141} aperrando-os de novo. As pancadas produziram o mesmo som abafado.

—Estou desarmado, covardes!—gritou elle, quando as primeiras pauladas de «cacetes» curtos lhe estalavam na cabeça, nos braços e no peito.

—Chama os teus sicarios do Brazil!—dizia o antigo amante de Carlota, sovando-lhe a cara de pontapés, quando elle, já em terra, coberto de sangue, perdêra o accôrdo.

A dançarina presenceava o espectaculo de dentro do barco, que se fizera ao largo, graças á prudencia do barqueiro.

Os francezes retiraram-se a passo moroso, conversando na mais tranquilla pacatez de tres socios do instituto de bellas-letras, que viessem de descobrir nas margens do Mincio o esqueleto d'um ichtyosaurus.

Carlota, contra a vontade do barqueiro, chegou-se a terra. Não vendo os vultos, saltou, e viu em terra o amante, que gemia a cada esforço inutil que punha para erguer-se sobre os braços macerados. O barqueiro veio em auxilio da consternada moça. Tomaram-no entre os braços, deitaram-no na prôa do barco, e lavaram-lhe a face arregoada de sangue.

Luiz da Cunha foi curado em Peschiera, e, logo que as forças lh'o consentiram, quiz convalescer em Veneza. Carlota seguia-o, indemnisando-o com extremosos cuidados do desgosto d'uma perigosa sova, por causa d'ella.

Em Veneza, Luiz da Cunha que não déra, durante quinze dias, noticias suas a Marianna, com quanto se não doesse muito de tal falta, achou que era prudente procural-a, que não fosse ella, desesperada, sustar no Brazil a remessa d'uma importante quantia que elle exigira.