—Pouco tenho que te conte. D. Marianna appareceu no Rio, sem ninguem a esperar. Foi transportada n'uma rede ao seu leito. Soube-se que tu não vieras, e correu que tinhas morrido. Marianna não recebia visitas, nem os medicos. Pedi aos tios que me deixassem vêl-a, não o consegui. Um d'elles contou-me os teus desatinos, e disse-me que a infeliz era tão nobre que não pronunciava contra ti uma queixa. Precisava explicar a sua fuga, e o pouco que disse foi mais amplamente contado por cartas do ministro do Brazil na Austria. Levantou-se contra ti um brado de indignação. Contaram-se todos os teus infortunios de Lisboa. Á carga cerrada, os amigos de D. Marianna pediram que lhe fosse tirada a administração da casa de seus filhos, para que tu não viesses continuar a dilapidál-a. Tua virtuosa mulher pediu que a não mortificassem, visto que a sua morte viria breve emancipar os pobres filhos da sua indigna tutella. Empenharam-se todos em distrahil-a: o mais que conseguiram foi mudál-a para uma quinta no Bota-fogo, onde viveu vinte dias. Aqui tens bem simples a historia, e realmente te digo que é uma historia bem fertil de lances desgraçados... Déste um pontapé na fortuna, Luiz, e com esse pontapé arremeçaste tua mulher á sepultura...
—Pois sim... agora cala-te. As tuas reprehensões, além de inuteis, não me soam bem.
—Desculpa-me se te fallo com franqueza tão rasgada. O facto de seres meu credor não me humilha até ao silencio approvador dos teus crimes.
—Os meus crimes... não são meus.
—Pois de quem?!
—D'um demonio que me perde... E agora vejo que estou irremediavelmente perdido!...
—Comparativamente ao que perdeste... estás.
—E pobre...
—Quasi pobre. Tens apenas quatro contos de reis{147} que te devo, e o pouco que tenho acima d'esse capital á tua disposição.
—Minha mulher fez testamento?