Os prisioneiros foram levados ás Antilhas para serem garrotados. Alguns foram-n'o logo. Luiz da Cunha, que promettêra aos capitães o resgate da sua liberdade, pesando-se a ouro, foi posto a ferros em Porto-Rico.

Chegára a nova á Bahia, onde Proença negociava. Não se fallava em Luiz da Cunha; mas dizia-se que um portuguez ou brasileiro, que parecia de educação distincta, fôra prêso, e demorára com astuciosas promessas o seu processo.

Proença não tinha animo para encarar o suspeito Cunha n'esse ultimo grau da infamia. Apressou-lhe quanto pôde soccorros, e, calando o nome do prêso, solicitava a sua liberdade.

Entretanto, Luiz da Cunha tramava a fuga. Todos os seus ardis foram descobertos. Parte das authoridades hespanholas quizeram desfazer-se d'elle, pendurando-o n'um triangulo. Mas o governador não consentira, sem primeiro ouvir esse homem mysterioso. Ouvindo-o, admirou-lhe a eloquencia astuciosa; arrancou-lhe o segredo de alguns dos precedentes que mais deviam tocar-lhe o espirito um pouco romanesco. Luiz da Cunha soubera{152} dar-se prestigio, porque adivinhára a indole da authoridade.

Foi processado e condemnado a tres annos de prisão em Porto-Rico. Tres annos! Mil e noventa e cinco dias e outras tantas noites de ferros para esse homem, desamparado de todos, forçado a pedir esmola, como um ladrão, pela grade da enxovia! Não terá elle, ao menos, a coragem do suicidio?!

Não tinha.

O governador mandava-lhe umas sôpas, e umas calças velhas. Uma senhora desconhecida esmolava-lhe um jantar todos os domingos, e mudava-lhe os lençoes da pobre enxerga. O carcereiro, apiedado com a apparente resignação do pirata, arranjava-lhe livros, e dava-lhe para de noite uma candeia.

Quatro mezes d'este viver! Eis alli o amante de Assucena! o marido de Marianna! Aquelle homem que tira de uma tigella de barro com um garfo de ferro umas couves, é o mesmo que pagava dançarinas a cinco mil francos por mez; é o mesmo que vira fugir-lhe por entre os dedos cem contos de reis. E, comtudo, não tem ainda trinta annos! Que futuro!

Proença vem a Porto-Rico, ao quarto mez de prisão de Cunha. Procura o governador, com valiosas cartas de recommendação, e historia-lhe vagarosamente a vida do prêso. O governador espanta-se de tanto crime, e crê na magica influencia de Satanaz sobre o desgraçado. Uma das circumstancias que mais o pungem é o illustre nascimento de Luiz da Cunha e Faro! Era fidalgo, sentia a dôr collectiva da raça: o vexame e a condolencia de uma sympathica compaixão. Vencido pelas instantes lamurias de Proença, quiz ser arbitro na liberdade do prêso, assim como o tinha sido no immediato garrote que os outros soffreram. Luiz da Cunha, com cinco mezes de carcere, é solto. Respira o ar da liberdade, é senhor seu; mas a liberdade que lhe importa sem dinheiro, sem soccorro, sem incentivo algum ás forças que lhe sobejam ainda para commetter difficultosas emprezas? Que perversidade nova lhe resta a explorar? A que reservatorio do inferno irá elle invocar um outro genio?

Que lhe falta?{153}