Luiz da Cunha fôra chamado, apenas solto, a casa do governador. Entrou n'uma sala particular, onde encontrou Proença. Não córou: a commoção forte que um facil apreciador julgaria vergonha, era o contentamento de encontrar um homem que, de certo, não viera alli para o deixar sem dinheiro.

O expatriado é que não podia soster as lagrimas. Sentia o vilipendio de Cunha, como se tirasse dos hombros do infame para os seus o pêso da ignominia.

—Vieste salvar-me?—disse serenamente o pirata infeliz.

—Já ninguem te salva... Vim alcançar a tua liberdade para experimentares uma nova posição social. Cahiste muito no fundo. Já não ha braço que te levante.

—Parece-me que não. Venho de estudar na solidão da masmorra. Philosophei o melhor que se póde com os meus principios experimentaes. Conclui que sou uma machina. Não tenho vontade, nem acção. Quero vêr onde chega isto! Desejava poder calcular approximadamente, pelos dados da vida, que morte será a minha. Tenho trinta annos. Proença! como se póde ser tudo o que eu tenho sido em quatorze annos!

—E que serás tu?!

—Eu sei!... o mais natural na minha situação é pedir uma esmola.

—E és capaz de pedil-a?

—Que duvida! Morrer de fome é escolher de todas as mortes a mais indecente.

—E gracejas!