—Vou para Portugal. Tenho um palpite de que vou ser feliz...

—Feliz! Quem fará a tua felicidade em Portugal?

—Uma mulher.

—Como Marianna?

—Não me falles em Marianna. Tenho tido horas de inferno pensando n'essa infeliz... Eu não sou de bronze, Proença. Vi-me tão afflicto uma noite na cadeia, que me puz de joelhos a pedir-lhe perdão, cuidando que a via. Era febre; mas olha que a vi tal qual ella devia ser a expirar... Palavra de honra! não me falles n'ella... Bastam-me os meus remorsos...

—Tu não tens remorsos, Cunha... Não fallemos n'ella; concordo... O nome d'essa infeliz sôa mal nos teus ouvidos... e é uma profanação na tua bôca... Queres então ir a Portugal procurar uma mulher que te ha de fazer feliz... Vejo que a desgraça tem comtigo momentos de zombaria... Vai. Dou-te o dinheiro necessario para a passagem, e para a subsistencia de alguns mezes.

—És um perfeito cavalheiro. Espero ainda embolsar-te do ultimo real que me emprestas... Ris-te? É porque não sabes os meus planos.

—Os teus planos... O que me faz rir é a facilidade com que te illudes, a inexperiencia do que és, a intimativa com que te confias a uma esperança imaginaria. Que mulher de Lisboa descerá até Luiz da Cunha com a sua riqueza? Estou fóra de Portugal ha oito annos, e conheço a tua vida dia a dia; conhecem-na todos no Rio de Janeiro.{155} Quem te não conhecerá em Lisboa? Eu vi uma carta d'um tal visconde, escripta ao ministro portuguez no Brazil, que te apresentava um prodigio de immoralidades.

—Esse visconde era precisamente o visconde de Bacellar.

—De Bacellar, justamente.