Assucena ergueu as mãos, murmurando o padre-nosso. A viscondessa reparou na exaltação religiosa de sua filha, e capacitou-se das suspeitas do padre Madureira. Estas exaltações eram uma ameaça de algum grande desmancho intellectual.

Assucena obedecia ás mais extravagantes preoccupações religiosas: abraçava todos os prejuizos populares: desauthorisava a razão, calando-a com fanaticos receios. Déra-se na sociedade, como incentivo de risos, se fosse possivel sustentar a vehemencia das suas crenças em publico.

Depois da oração, Assucena pediu silencio a sua mãe, que se retirou maravilhada da impassibilidade da filha; mas segura de que as astucias de Luiz da Cunha não poderiam nada contra ella. E era essa a sua afflicção.

Padre Madureira viera á hora do chá. A neta do arcediago não dissera uma palavra do dialogo com a viscondessa. Porém o padre, com grandes rodeios, ia dar-lhe, dizia elle, uma espantosa novidade. Assucena atalhou, dizendo:

—Já sei. Não fallemos em tal cousa.

—Já sabe!! mas não sabe tudo, minha senhora.

—Sei tudo. Vem desgraçado...

—E tão desgraçado que lhe pede uma esmola.{160}

—A mim?!... Santo Deus! Como sabe elle que eu...

—Perdão, senhora D. Assucena. Attenda-me. Eu tive uma imprudencia; mas o meu fim era justo e nobre. Quiz punir Luiz da Cunha para que a dôr da culpa lhe despertasse no coração sentimentos de honra. Fiz que elle soubesse no Brazil, por uma carta minha, quem o salvára da ignominia e do degredo, rehabilitando-o para o futuro com os meios necessarios para experimentar uma nova estrada.