—Deus lhe perdôe... senhor padre Madureira... o mal que fez! Eu perdôo-lhe, e Deus Nosso Senhor me receba estas lagrimas em desconto dos meus peccados.

—Luiz da Cunha—proseguiu o padre—depois de mil revezes, apparece em Portugal, e encontra-se comigo, quando eu sahia do côro. Pergunta-me se v. exc.ª ainda vive. Vacillo na resposta. Quero até fingir que não conheço tal homem. Insta comigo para que lhe responda. Digo-lhe que Assucena vive; mas não para o mundo. «Quero vêl-a—exclama elle—quero pedir-lhe perdão!» É impossivel—disse-lhe eu.

—Sim, sim, é impossivel!...—atalhou Assucena sobresaltada.

—Quer lançar-se-me aos pés... eu tento fugir-lhe... segura-me pela mão, e exclama com desespêro: «tenho fome! estou ha tres dias sem pão! dê-me uma esmola!»

—Oh meu Deus!—bradou Assucena, escondendo o rosto nas mãos.

—Eram horriveis as visagens d'aquelle infeliz!—continuou o padre.—Disse-lhe que viesse a minha casa; dei-lhe de comer... Sahi, deixando-o á mesa. Fui dar ordem n'uma hospedaria para que o sustentassem, e mandei-o para lá... Que é isto?—interrompeu-se impetuosamente Madureira, tomando Assucena nos braços—Minha filha...

Estava desmaiada.

Os haveres da neta do arcediago estavam reduzidos á quinta do Lumiar. Extremas economias permittiam-lhe pagar diariamente duas missas por alma dos seus bemfeitores, dar jantar a vinte pobres, e sustentar-se com muito pouco.{161}

Assucena não aceitára nunca uma mealha de casa de seu padrasto, remira-se com o seu pouco, embora sua mãe esgotasse todos os subterfugios para melhorar-lhe as commodidades. Que poderia ella fazer em bem de Luiz da Cunha?

Padre Madureira tinha apenas o seu mesquinho ordenado do cabido, como beneficiado simples. Tambem não podia.