—É verdade; mas o padre Joaquim merece dous bofetões.

—O padre Joaquim é seu amigo. Se o menino observar os conselhos d'elle, ha de ter um proceder exemplar; e, se os não attender, obriga-me a castigal-o asperamente, bem contra minha vontade. Não quero que se diga que um filho de João da Cunha escala as janellas dos visinhos. O peor que póde acontecer-lhe, meu filho, é ser surprendido n'essa casa, e olhe que de certo o não respeitam para o deixarem descer tranquillamente como subiu.

Pouco depois, Luiz da Cunha sahiu do quarto de seu pae, e passando pelo capellão deu-lhe um abraço, que o fez impertigar-se com a grave compressão das costellas. Luiz ria-se, e padre Joaquim desencadeava-se o mais prestes que podia dos braços tenazes do seu discipulo de latim.

As correcções paternas aproveitaram muito, por isso que, na noite d'esse dia, á hora costumada, Luiz da Cunha agatinhou rapidamente a escada, e içou-se para a varanda. Pouco depois que entrára, o logista, avisado por quem quer que foi, subiu ao segundo andar. Luiz da Cunha fugiu precipitadamente, e quando descia, na altura do primeiro andar, o robusto confeiteiro levantou os ganchos da escada, e deixou-a pender para o centro da terra, em plena condescendencia com as leis da gravitação.

O filho de João da Cunha recuperou os sentidos quando uma patrulha da policia o entregava ao pai, que, a essas horas, recolhia, e não é bem liquido se tambem elle debaixo do capote trazia uma escada de corda.

Luiz da Cunha desmanchou algumas articulações, cuja collocação o fez dar ao diabo a filha do confeiteiro. O pae{20} ameaçou com um chicote o seu pundonoroso visinho; mas, pelos modos, o minhoto não era homem de transigir pelo mêdo d'uma arrogancia dos actos dos Sousas e Faros. A rapariguinha nunca mais appareceu na janella, e, no fim da semana immediata, casou com o caixeiro, rapaz dos suburbios de Guimarães, muito fino, que é hoje capitalista, e não foi ainda codilhado por governo nenhum. Já vêem que a filha do confeiteiro não perdeu nada, visto que o marido não a encontrou lesada physica nem moralmente. Estes é que são os felizes. Não sabem nada de psycologia, nem de anatomia: não descriminam imperfeições da alma nem do corpo.

João da Cunha teve assomos de rigidez paterna. Luiz desconheceu-o, quando o viu, sombrio e carrancudo, ordenar-lhe que seguisse o padre capellão ao collegio dos Nobres. Obedeceu sem hesitar um momento. Entrou no collegio, onde os mestres prevenidos trataram de captar-lhe a estima, habitual-o á casa, para se dispensarem da outra ponta do dilemma.

Luiz recebeu alegremente os companheiros que os mestres lhe escolheram. Eram os mais estudiosos e mais ajuizados. Acharam-no docil, e persuadiram-se que lhe tinham inoculado o amor do estudo, e o esquecimento das liberdades por que fôra, aos dezeseis annos, encerrado no collegio.

João da Cunha, maravilhado da mansidão de seu filho, visitou-o, indemnisando-o com afagos das asperezas que precederam a sua entrada no collegio. Luiz não se mostrou magoado com as asperezas, nem lisongeado com os carinhos. Estava melancolico, e dizia o padre Joaquim, sempre agoureiro aziago, que o menino meditava uma nova loucura, fosse ella qual fosse.

Prophecia de padre Joaquim era infallivel. N'essa noite, Luiz cortou em tiras os lençoes e o cobertor. Saltou para a cêrca. Partiu a cabeça ao hortelão com um fundo de garrafa dos aguilhões do muro, quando o indiscreto gallego lhe agarrou uma perna para a não deixar seguir o destino da outra.