Luiz recolheu-se a casa de José Bento de Magalhães e Castro.

Este senhor José Bento é uma pessoa que nós conhecemos{21} da FILHA DO ARCEDIAGO. É justamente aquelle que casou com Rosa Guilhermina, em 1825; que comprára n'esse anno o fôro de fidalgo, e fizera a sua nova residencia em Lisboa, por isso que os invejosos no Porto tinham a petulancia de rir-se da pedra d'armas que elle fizera lavrar no seu palacete do Reimão.

Em Lisboa fôra bem recebido, particularmente por João da Cunha e Faro, que, segundo dizem, lhe vendêra cara a consideração. D. Rosa Guilhermina era bem acolhida na roda que torce o nariz aristocratico aos que chegam sem garantias d'algum conspicuo de linhagens. A maledicencia dizia que João da Cunha não era indifferente á mulher do senhor José Bento. Tanto não ouso eu dizer, e a calumnia é mancha que não pega nos meus romances. Pêcos de imaginação, sim; mas arreados de phantasias que desdouram o meu proximo, isso nunca.

Luiz, sempre acceito com os seus gracejos a D. Rosa, fugindo do collegio, surprendeu-a com um abraço estouvado. Pediu-lhe que não dissesse nada ao pae, e o deixasse sentar praça em marinha, que era a sua vocação. D. Rosa prometteu-lhe tudo, e avisou João da Cunha, que, a essas horas, recebia a fatal nova da fuga do filho. A filha do arcediago pedia-lhe uma entrevista, antes de encontrar-se com Luiz. O fim era combinarem o meio de o levarem com brandura a entrar em casa, onde de certo a violencia o não levaria. João da Cunha annuiu, e o filho de Ricarda foi recebido com affabilidade por seu pae.

Não era já possivel domal-o com violencias nem com afagos. Luiz da Cunha tinha um roteiro fixo pelo destino, cuja absurda influencia é necessario acreditar na vida tragica de certos homens, que nos compadecem, que nos nauzeam, e que nos assombram!

João da Cunha, certo da sua inefficacia paterna, resumiu a sua auctoridade ensinando o filho a salvar as apparencias, porque os escandalos eram atroadores, e promettiam-lhe uma vergonhosa expulsão das casas honestas. O merceeiro visinho, não obstante a sua coragem, passou pelo desgosto de curar-se d'uma dura carga de pau com que o amante de sua filha, auxiliado por campinos embriagados em noite de tourada, o mimosearam dentro do seu proprio balcão. Toda a importancia de João da{22} Cunha foi necessaria para torcer a justiça, visto que o logista era affecto em extremo á politica vigente, o que provára mais d'uma vez com o cacete na mão. Um outro pae, que ousou repellir de sua casa o fidalgo, chamando-lhe «mulato» perdeu a orelha esquerda n'esta honrosa lucta, sem por isso, ainda assim, salvar a filha da deshonra. Um irmão d'uma estanqueira, que morou ao Pote das Almas, pagou com cadêa de tres mezes, afóra as custas do processo, a audacia de quebrar a cabeça ao amante de sua irmã, que lhe viera, em noite de luminarias, recitar debaixo da janella umas coplas em que lhe pedia escandalosamente licença de cear com ella.

Esta classe de mulheres era a menos ponderosa na balança da opinião publica. Algumas d'estas aventuras faziam rir as mulheres distinctas por nascimento e por muitas outras qualidades que não lustravam muito o nascimento...

Luiz da Cunha lá foi entre ellas receber os applausos, e achou que a vereda nova, em que se lançára, levava mais depressa ao capitolio. O que elle queria era a reputação de conquistador, que principiava a declinar de seu pae, e justo era que não sahisse da familia.

O filho de Ricarda era jactancioso. Costumava, com os seus amigos, fixar o dia impreterivel de tal ou tal triumpho, e bebia com elles no Isidro á saude da victima destinada.

Se acontecia acharem-se presentes os parentes da victima illustre, o impudente não calava o nome, nem respeitava as conveniencias do pudor, visto que os seus amigos o não respeitavam.