O «Ismael,» que as damas desdenhavam pela côr, se não fosse o terrivel sestro da denuncia, em fins de jantares, poderia enriquecer o seu cathalogo com muitas illustrações do sexo, que já n'esse tempo era fraco.

Mas a fatuidade indiscreta perdeu-o no conceito das menos pundonorosas. Pouco e pouco repellido, Luiz da Cunha aos vinte e cinco annos, era detestado, acolhido com desprêso em todas as casas, excepto na de José Bento de Magalhães e Castro, que, em 1837, era já visconde de Bacellar. Rosa Guilhermina foi a unica mulher que exerceu uma sombra de ascendente fraternal sobre o filho de{23} Ricarda. Os seus rogos afastaram-no muitas vezes de abysmos, em que a sua queda seria mortal. Tinha sido ella quem o salvára de casar-se com a mulher que mais séria impressão lhe fizera, quando se viu arremessado com infamia d'entre tantas que elle pozera no pelourinho da ignominia.

Esta mulher era uma infeliz encontrada n'um primeiro andar da rua do Ouro: uma d'essas que vem, com os hombros nús e as tranças enfloradas, pedir-vos da janella com um aceno e um sorriso o preço do espectaculo a que se offerecem, por esse sorriso e aceno voluptuoso.

Luiz da Cunha sympathisára com a libertinagem da mulher que lhe ensinava cousas novas para o coração, não combalido de todo ainda pela podridão do vicio. As duas almas comprehenderam-se maravilhosamente, porque se encontraram na profundidade do mesmo charco. Luiz encantou-se d'esta mulher. Pediu-lhe o exclusivo da sua alma, e foi feliz na súpplica. Liberata, desde esse dia, foi d'elle, exclusivamente, como a filha que foge apaixonada do seio materno. Encontrou uma bem mobilisada aposentadoria, servida de criados, e da opulencia que os brilhantes de Ricarda, prodigalisados em ultimo recurso por João da Cunha, lhe permittiam. Aquelles brilhantes reservára-os elle, sem escrupulo, para patrimonio do filho da sua esquecida amante.

Envergonhado d'esta união torpe, João da Cunha admoestou o filho; e, quando esperava despertar-lhe o brio com os topicos d'uma sentimental censura aos seus rasos instinctos, Luiz respondeu-lhe que tencionava salvar Liberata da infamia, casando com ella.

O primeiro impeto de cólera paterna foi correr sobre o filho e soval-o a ponta-pés. Luiz estranhou a lisonja, e pôde muito sobre si para não receber o pae na ponta de um punhal.

Expulso de casa, recorreu á viscondessa de Bacellar, que lhe prometteu reconcilial-o com o pae, com tanto que elle despresasse essa mulher, que o arrastava com ella ao mesmo abysmo de perdição. Luiz prometteu não casar; mas despresal-a nunca. Se seu pae lhe negasse recursos, disse elle que seria ladrão para sustental-a, ou morreriam de fome, abraçados.{24}

João da Cunha, sabendo este heroismo, reconheceu que seu filho era a vibora, que elle trouxera no coração, para o morder com o remorso expiador do seu crime, cujo saldo com a Providencia começava vinte e seis annos depois.

E aceitou a proposta. Continuou a dar-lhe recursos para uma dissipada grandeza com que a libertina se infatuava, soberba do seu dominio sobre o homem, que se não pejava de assentar-se, ao lado d'ella, na mesma sege e no mesmo camarote.

Dizia-se que Liberata era fiel ao fascinado moço. Amigos de João da Cunha tentaram vencêl-a com promessas, para darem ao desgraçado uma surpreza que o fizesse detestal-a.