—Gosto. Ha uma unica pessoa que se parece comigo n'este momento pela desgraça. És tu. Quero viver comtigo. Quero vêr se a rehabilitação é possivel para ambos nós.
—Agora creio que é. Olha, Luiz, toda a minha philosophia desappareceu. Eu não t'o dizia que sem dinheiro não ha philosophia? Sabes tu que tudo isto me parece um sonho!... Ha mais d'um anno que me embriago todos os dias para me esquecer... Hei de contar-te a minha vida... Eu não esperava vêr-te mais; mas vê tu o que é o presentimento... Ainda não ha quatro horas que eu dizia:—«Que impressão faria eu n'este estado a Luiz da Cunha!» O que são as cousas d'esta vida!... Até parece que recuperei o som da palavra, fallando com o meu amante dos tempos felizes! Ai! quem me déra ser bella para te agradar ainda! Diz-me cá: esta machina não terá concerto?
—Veremos.
—Eu era ainda bella se me tirassem da cara estas manchas vermelhas. Sinto ainda a robustez dos trinta annos; o que me falta é o fogo da alma... Vê se fazes de mim outra mulher, que eu prometto de fazer a tua felicidade... Não me vês a chorar? Isto é galante! Cuidei que chorara pela ultima vez quando entrei, no hospital, pobre, e abandonada do infame que me reduziu a este estado...
—Não chores, Liberata... Vamos vêr o que é o futuro. Até ámanhã.
—Pois deixas-me?! Vou comtigo já.
—Não. Preciso illudir alguem.
Luiz da Cunha deixara alguns cruzados novos sobre uma banqueta de pinho, e sahiu.
Liberata não provou somno. As lagrimas incessantes{165} eram-lhe d'um sabor novo. Nunca ella fôra tão infeliz como n'essa noite. Havia no seu soffrimento alguma cousa que disputaria á alma do cynico um momento de compaixão. N'aquella degradação não diremos que as lagrimas regeneram; mas por isso mesmo que são inuteis, como o orvalho sobre a flôr arrancada e sêcca, a mulher que as chora, é bem que nos apiedemos d'ella, mostrando-a como exemplo, mas que a infeliz não veja que é mostrada com escarneo!{166}