Tentára uma arriscadissima entrada de sêdas, quando os guardas-fiscaes, logrados sempre, velavam as fronteiras{168} desde Monção a Verim. Encravou-se a roda da fortuna. As cargas foram tomadas, e o contrabandista prêso. Luiz da Cunha para remir-se gastou tudo que possuia. Liberata foi a Chaves com o precioso peculio a salvar o amante. Choraram, abraçando-se no carcere? Não. A antiga amante do conselheiro dizia a Luiz, sorrindo:

—Vamos para Paris? Parece-me que fez neste mez seis anos que eu te fui buscar ao Limoeiro. É fado meu! O pior é não termos um conselheiro, que nos dê a sege... O mais tudo vai bem. Temos feijões em casa, e muito amor para prato de meio.

As authoridades queixaram-se ao governo, allegando que o funccionario publico João Maria das Neves era o primeiro contrabandista. Os jornaes de Lisboa reproduziram a accusação. Ia ser demittido, quando o ministro se achou coacto por um dos seus amigos que lhe citou uma historia d'uns quatrocentos mil reis...

O escrivão continuou funcionando. Vendeu o adereço de Liberata, e tentou novas aventuras em pequena escala. A sorte sorriu-lhe outra vez, com quanto as denuncias o rodeassem de perigos. Liberata acompanhava-o galhardamente nas emprezas. Montava com varonil perfeição. Grudava um bigode com gracioso arreganho; vestia um casaco de peles: cruzava com a perna em brunida bota d'agua um bacamarte, e lançava com um piparote para a nuca o chapéo sevilhano.

—Era esta a mulher que eu devia ter encontrado aos quinze annos!—dizia o filho de Ricarda.

Em 1845 o escrivão estava remido do preço com que comprára a liberdade dois anos antes. Resolvêra dar o ultimo assalto á vigilancia dos guardas. Eram doze cargas de panos d'alto preço, que podiam augmentar seis mil cruzados ao seu peculio. Deviam entrar por Almeida.

Luiz da Cunha apresentou-se ahi com a corajosa Liberata. As cargas pisaram algumas milhas de territorio portuguez, quando os guardas a cavalo, a toda a brida, lhe vinham no alcance. Os almocreves aperraram os bacamartes, com o contrabandista à frente. Liberata não se afastára de ao pé do seu amante. Travou-se um vivo tiroteio. Augmentaram os guardas. As cargas foram tomadas; dous almocreves morreram. Luiz da Cunha fugiu, e{169} a destemida cavalleira, com a clavina despejada, esporeava ao lado d'elle.

—Estás salvo—disse ella—mas eu estou ferida.

—Ferida! aonde?

—No peito... e creio que morrerei!